Recentemente, o futebol voltou a ser palco do debate sobre os limites da intolerância no esporte. Durante uma virada histórica da Argentina contra o Egito na Copa do Mundo de 2026, cenas lamentáveis de discriminação racial foram desferidas da torcida argentina contra outros torcedores e figuras públicas, como o influenciador digital Speed.
Quem acompanha o futebol sul-americano com frequência sabe que esses episódios de racismo na Argentina, envolvendo algumas torcidas do país vizinho, infelizmente não são casos isolados. Eles ocorrem de forma corriqueira nas arquibancadas do país e de todo o continente.
Essas manifestações explícitas trazem à tona algumas questões importantes: por que o racismo na Argentina se estruturou de maneira tão visceral? Qual é a explicação histórica para a quase total ausência de negros no país e por que a maioria dos argentinos são brancos?
Longe de ser uma coincidência geográfica ou biológica, o perfil demográfico atual do país é o resultado direto de escolhas políticas, projetos de extermínio e um profundo apagamento histórico.
Este artigo traz um resumo do que abordei no vídeo “Como a Argentina se tornou um país tão racista”, que você pode conferir clicando no play aqui em cima.
Unitaristas contra Federalistas: a formação do Estado argentino
A origem da Argentina está atrelada à colonização hispânica nas Américas. Durante o período colonial, o território pertencia ao Vice-Reino do Prata, que também englobava áreas que hoje correspondem ao Uruguai e ao Paraguai.
Após o processo de independência no início do século XIX, o novo Estado nacional mergulhou em violentas guerras civis para definir qual modelo político e ideológico estruturaria a nação.
A disputa central ocorria entre duas grandes frentes:
- Unitaristas: centralizados na província de Buenos Aires — região que concentrava o maior volume populacional e a maior parcela do PIB —, defendiam que a capital deveria impor sua hegemonia política e econômica de forma centralizada sobre todo o restante do país.
- Federalistas: compostos pelas elites rurais do interior e das áreas do campo, que contestavam o domínio absoluto e o projeto centralizador de Buenos Aires.
Com a vitória militar e política dos unitaristas, a ideologia de Buenos Aires consolidou-se como o eixo central da identidade nacional.
Figuras intelectuais proeminentes dessa elite portenha, como Domingo Faustino Sarmiento, formularam teses que dividiam o país entre a “civilização”, representada pelo desenvolvimento urbano de molde europeu em Buenos Aires, e a “barbárie”, atribuída ao interior rural, composto por indígenas, gaúchos, mestiços e mulatos.
Esse projeto civilizatório excludente, que deu início ao racismo na Argentina, operava sob a mesma lógica do “Destino Manifesto” nos Estados Unidos e das justificativas neocolonialistas europeias do final do século XIX: a premissa de que povos considerados “superiores” detinham a prerrogativa de submeter, aculturar ou eliminar as populações tidas como “bárbaras”.
Trata-se do exemplo mais nítido e violento de etnocentrismo aplicado como política de Estado, onde uma cultura se impõe como régua universal para desumanizar, silenciar e justificar o apagamento material de outros povos.
Por que a maioria dos argentinos são brancos? Um projeto de branqueamento
Para consolidar essa identidade nacional homogênea e europeizada, o governo argentino acionou, a partir de 1860, uma agressiva política de incentivo à imigração europeia. Entre 1860 e 1950, a Argentina viveu um fenômeno migratório massivo, tornando-se o segundo país das Américas que mais recebeu imigrantes no período, atrás apenas dos Estados Unidos.
A chegada de aproximadamente 6 milhões de europeus — majoritariamente italianos e espanhóis — transformou a demografia local. Esse fluxo massivo foi usado pelas classes dominantes para justificar o mito de que os argentinos seriam “descendentes diretos dos europeus”, apartados do restante da América Latina.
O racismo na Argentina e o apagamento da herança originária e africana não ocorreu por acaso. Ele foi pavimentado por meio do extermínio e da violência estatal, como a Campanha do Deserto, que promoveu o genocídio e a tomada de territórios dos povos indígenas na Patagônia.
Porque tem poucas pessoas negras na Argentina? O fluxo escravista no Vice-Reino
Existe uma farsa de que a Argentina nunca teve populações negras ou que a escravidão africana não fez parte da formação do Estado argentino. Na realidade, até a metade do século XIX, os africanos escravizados e seus descendentes compunham uma parcela bastante significativa da mão de obra local. No entanto, há uma diferença quantitativa crucial em relação ao cenário brasileiro.
Enquanto o Brasil foi o território que mais absorveu o tráfico transatlântico, recebendo cerca de 4,8 milhões de africanos escravizados, a Argentina recebeu um fluxo estimado em torno de 200 mil pessoas.
Isso ocorreu porque a Coroa Espanhola priorizou a exploração da mão de obra indígena local nas principais atividades econômicas do império, como a extração de minérios nas minas de prata de Potosí, usando estruturas de trabalho compulsório já existentes no continente.
Devido a esse fator, a população negra partiu de uma condição numérica minoritária quando comparada ao Brasil, porém, não menos importante.
O que a Argentina fez com os negros? As 3 principais causas do apagamento da população
A redução drástica e o quase desaparecimento da população negra argentina ao longo da segunda metade do século XIX não foram um processo espontâneo, mas sim a consequência de três fatores históricos:
- marginalização após a abolição da escravidão;
- linha de frente nas guerras;
- epidemias urbanas e abandono sanitário.
Entenda mais sobre esses fatores a seguir.
1. Marginalização após a abolição da escravidão
A escravidão foi abolida na Argentina na Constituição de 1853. No entanto, após a conquista da liberdade jurídica, a população negra foi sumariamente abandonada à própria sorte pelo Estado, sem acesso a terras, empregos formais, educação ou direitos políticos. Essa ostracização empurrou os afro-argentinos para as franjas da marginalidade socioeconômica.
2. Linha de frente nas guerras
Durante os intensos conflitos internos do século XIX e, principalmente, na Guerra do Paraguai (1864–1870), os homens negros e libertos foram massivamente recrutados e usados como linha de frente dos exércitos — atuando literalmente como bucha de canhão. Essa política de recrutamento forçado dizimou uma parcela expressiva e vital da população masculina negra em idade reprodutiva.
3. Epidemias urbanas e abandono sanitário
Devido à situação de extrema vulnerabilidade social e habitacional a que foram submetidos, os bairros de maioria negra em Buenos Aires sofreram de maneira aguda com crises sanitárias. A epidemia de febre amarela em 1871 assolou as comunidades afro-descendentes sem que houvesse qualquer intervenção, assistência ou política de contenção por parte do governo central, resultando em uma taxa de mortalidade catastrófica.
Qual a taxa de negros na Argentina hoje?
Atualmente, estima-se que a população preta ou afro-descendente na Argentina corresponda a algo entre 3% e 4% da população total do país.
Esse percentual, contudo, convive com um histórico déficit estatístico. Ao longo dos séculos XIX e XX, diversos censos demográficos nacionais foram deliberadamente fraudados ou omitiram critérios étnico-raciais para ocultar a existência de cidadãos negros, colaborando com a narrativa oficial do branqueamento.
Nas últimas décadas, o fluxo migratório de trabalhadores vindos de países vizinhos como Bolívia, Paraguai e Peru alterou novamente a dinâmica urbana.
Essas populações migrantes frequentemente sofrem com as mesmas estruturas de discriminação e xenofobia, reflexos de uma sociedade que se autoproclamou a “Paris das Américas” e naturalizou visões de superioridade cultural e racial.
Por que não tem negros na seleção da Argentina?
A completa ausência ou raridade de atletas negros vestindo a camisa da seleção nacional de futebol é o reflexo visual mais evidente de todo esse processo secular de extermínio físico, apagamento estatístico da população negra e racismo na Argentina.
Enquanto países vizinhos construíram suas identidades esportivas a partir da miscigenação da classe trabalhadora, a Argentina consolidou seu futebol e suas instituições sob o mito da homogeneidade branca europeia.
Quando o racismo estrutural apaga a presença de um grupo da história oficial, da cultura de massas e das periferias das grandes cidades, esse apagamento se reflete de maneira direta nos campos de jogo.
Legislação e punição: existe lei contra racismo na Argentina?
No ordenamento jurídico da Argentina, existem mecanismos legais para coibir a discriminação. A principal ferramenta é a Lei Antidiscriminação (Lei nº 23.592), promulgada em 1988, que pune atos de discriminação baseados em raça, religião, nacionalidade ou ideologia política.
Qual a pena de racismo na Argentina?
A legislação prevê penas que variam de um mês a três anos de prisão para quem participar de organizações ou fizer propaganda baseada em teorias de superioridade racial, além de obrigar o pagamento de indenizações por danos morais e materiais.
No âmbito esportivo, infrações de teor racista também podem acarretar multas financeiras pesadas e a perda de mando de campo para os clubes.
No entanto, a grande contradição reside na aplicação prática da norma. Como a sociedade argentina estruturou sua identidade nacional sob a falsa premissa de que “não há racismo na Argentina porque não há negros”, muitas ofensas de cunho racial são minimizadas pelas autoridades e pela opinião pública, sendo rotuladas de forma condescendente como “provocações de jogo”, “brincadeiras” ou “manifestações culturais” do futebol.
O racismo na Argentina não é um projeto isolado. Também vemos cenários tristes como esses no próprio Brasil e em outros países. Assista também: A verdade sobre o conteúdo anti Argentina.
Conclusão
A análise da história demonstra que o racismo na Argentina não é um desvio de comportamento individual de torcedores nas arquibancadas, mas a engrenagem sobrevivente de um projeto de Estado.
A elite unificadora do século XIX construiu uma narrativa nacional fundada no apagamento violento da herança africana e indígena para forjar uma ilusão de superioridade civilizatória.
Romper com essa naturalização da barbárie exige confrontar os mitos de origem e resgatar a verdade histórica deixada debaixo do tapete.
A compreensão de que as populações negras existiram, resistiram e foram politicamente sacrificadas é o primeiro passo para que o debate saia da indignação moral nas redes e se transforme em ferramentas concretas de combate à opressão no mundo real.
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Referências:
www.congreso.gob.ar/constitucionParte1Cap1_ingles.php
https://hedflow.com/2026/07/04/a-estranha-ausencia-de-negros-no-futebol-da-argentina/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_na_Argentina
https://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/coediciones/20100823031819/08frig.pdf



