O desempenho da Seleção Brasileira em sua estreia na Copa do Mundo 2026 gerou intensos debates. Para muitos analistas e torcedores que acompanham o histórico recente do futebol brasileiro, o resultado abaixo do esperado não foi exatamente uma surpresa.
Diante da conjuntura dos últimos anos, o otimismo inicial costuma ser rapidamente confrontado pela realidade, especialmente partindo de uma análise materialista e que desfaz as ilusões que as aparências podem apresentar.
Indo direto ao ponto, minha tese é de que o esporte nacional está sendo profundamente descaracterizado e deixando de representar sua própria raiz.
Isso, no entanto, não decorre de mera incompetência individual das federações ou de problemas de gestão isolados, mas sim de uma estrutura muito maior.
Quando analisamos a trajetória do futebol brasileiro, especialmente a partir da década de 1990, percebemos que a crise atual é o reflexo direto da transformação do esporte em um mercado internacional altamente financeirizado.
O futebol brasileiro como instrumento de identidade nacional
Para contextualizar esse cenário, é preciso compreender o papel histórico do esporte no país. Entre as décadas de 1930 e 1940, o futebol brasileiro foi absorvido e transformado em um símbolo oficial da identidade nacional.
O projeto consistia em usá-lo como um elo unificador, um ponto comum de identificação coletiva onde todas as classes e regiões pudessem se reconhecer como parte de uma mesma nação.
Com idas e vindas, esse arranjo funcionou até o final dos anos 1990 e início dos anos 2000 quando a lógica que operou o futebol como instrumento de consciência coletiva passou a ser visto como um negócio.
A virada da década de 90 para os anos 2000 trouxe consigo a consolidação global de uma nova conjuntura política e econômica: a ascensão das políticas neoliberais.
O projeto neoliberal propôs a abertura e a globalização de todos os mercados internacionais.
Na América Latina e no Brasil, esse processo se aprofundou nas administrações governamentais dos anos 90 e foi mantido em termos estruturais em todos os anos seguintes.
No universo do futebol, essa engrenagem mercantil se manifestou na desregulamentação das relações de trabalho e na quebra dos vínculos históricos entre atletas e clubes.
Do “caso Bosman” à Lei Pelé: a quebra do vínculo do passe
Até o início dos anos 1990, a relação entre jogadores e agremiações no Brasil era rigidamente protegida pelo mecanismo do passe.
O atleta pertencia contratualmente ao clube e não possuía a liberdade de negociar sua transferência diretamente com outras equipes.
Embora esse sistema contivesse distorções trabalhistas, ele garantia a manutenção dos grandes ídolos no futebol brasileiro por longos períodos, fortalecendo a identificação da torcida.
A virada radical desse modelo ocorreu no cenário europeu com o Caso Bosman, em 1995. O jogador belga Jean-Marc Bosman acionou a justiça contra seu clube por impedir sua transferência após o término do contrato.
A decisão judicial favorável a ele gerou a chamada Lei Bosman, que produziu dois efeitos avassaladores no mercado de futebol global:
- O fim do passe: libertou os atletas para negociarem diretamente seus contratos após o fim do vínculo com os clubes.
- O fim das cotas de estrangeiros: extinguiu o limite de jogadores da União Europeia por equipe nos campeonatos do continente.
No Brasil, o rescaldo ideológico dessa modernização neoliberal se traduziu na aprovação da Lei Zico (1993) e, fundamentalmente, na Lei Pelé (1997).
Apresentadas como marcos da profissionalização e da liberdade de mercado, essas legislações integraram de vez o mercado brasileiro de futebol à divisão internacional do trabalho.
O futebol brasileiro como celeiro de mão de obra
Com a livre flutuação dos atletas e o fim das barreiras para estrangeiros na Europa, o futebol brasileiro assumiu uma serventia subalterna no mercado global: tornou-se um exportador de matéria-prima bruta.
Da mesma forma que a economia nacional se sustenta na exportação de commodities agrícolas e minerais, o futebol passou a operar para fornecer força de trabalho jovem para o exterior.
Os dados evidenciam o tamanho desse fenômeno:
- Entre 1990 e 2008, o crescimento médio nas transferências de jogadores brasileiros para fora do país foi de 15% ao ano.
- Só em 2024, o Brasil transferiu 2.350 jogadores, enquanto a Argentina transferiu 1.217.
- O Brasil consolidou-se como o maior exportador de atletas do planeta, transferindo milhares de jogadores anualmente, a imensa maioria para ligas secundárias ou divisões inferiores da Europa e da Ásia.
- A Argentina figura em um distante segundo lugar nesse ranking de exportações, evidenciando a escala industrial que o mercado extrativista de atletas assumiu em solo brasileiro.
Como a lógica dominante passou a ser a lucratividade rápida, as categorias de base dos clubes nacionais mudaram seu foco.
A formação dos atletas começou a ser pautada para atender às necessidades táticas do mercado europeu, e não ao desenvolvimento do estilo do futebol brasileiro.
O país especializou-se em produzir e vender “ativos financeiros” em idades cada vez mais precoces — jovens de 16 ou 17 anos —, concentrando as revelações em posições específicas demandadas pelo exterior, como pontas velocistas e zagueiros físicos.
Um dos resultados dessa dinâmica foi o desaparecimento dos clássicos meias armadores, os camisas 10 de articulação, gerando uma mudança no modo de jogo da seleção brasileira e uma descaracterização do seu estilo.
Esse fenômeno também pode ser observado com o crescimento das instituições de tipo clube-empresa, organizações cujo objetivo principal é produzir atletas com potencial de negociação para os mercados internacionais – muitos sequer disputam divisões da elite do futebol.
Esse processo levou, também, a uma redução do futebol do “campo de terra batida” e do elemento popular ligado à sua formação, dando lugar a um modelo cada vez mais industrializado e padronizado na produção de novos jogadores.
A concentração financeira na UEFA e o abismo da América do Sul
Esse ecossistema criou um abismo financeiro intransponível entre as ligas europeias (o chamado Big Five: Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França) e o restante do mundo.
O poder financeiro oriundo de cotas de transmissão bilionárias e patrocínios globais permitiu que a UEFA centralizasse a riqueza do esporte.
O volume de investimento em transferências do mercado internacional revelam essa disparidade geográfica:
- UEFA (Associação Europeia): R$ 40 bilhões
- Premier League (Inglaterra – isolada): R$ 23 bilhões
- CONMEBOL (América do Sul): R$ 6,5 bilhões
Os clubes europeus e asiáticos concentram cerca de 88% de todo o capital movimentado em transferências internacionais no planeta.
Essa dinâmica estabelece uma relação de dependência:
- O Brasil vende seus jogadores a preços baixos quando eles ainda são promessas.
- A Europa lapida esses atletas, extrai a mais-valia desse espetáculo em campeonatos de altíssimo nível técnico e lucra bilhões de euros na revenda de direitos de imagem.
O capital que retorna às agremiações formadoras no Brasil é irrisório se comparado ao valor real gerado pelo ativo humano.
No plano doméstico, essa desigualdade internacional se reproduz internamente.
Os clubes brasileiros operam endividados e a distribuição dos direitos de transmissão televisiva cava um fosso entre poucos gigantes financeiros, como Flamengo, e as demais equipes tradicionais.
O fenômeno das SAFs, a arenização e a exclusão da classe trabalhadora dos estádios
Para sobreviverem à asfixia financeira e tentarem manter a competitividade diante do risco de rebaixamento e perda brusca de receitas, os clubes tradicionais começaram a recorrer ao modelo das SAFs (Sociedades Anônimas do Futebol).
A transformação do clube associativo em empresa atrai fundos privados de investimento e capital especulativo do mercado financeiro, como se observa nas aquisições recentes por conglomerados internacionais.
O objetivo do investidor privado não é o bem-estar social da comunidade ou o atendimento às paixões tradicionais da torcida. O objetivo do capital é o lucro. E essa dinâmica acelera dois processos colaterais severos.
A arenização e elitização
Os estádios tradicionais e os setores populares, como a antiga “geral” dos anos 80 e 90, acessível por valores irrisórios, foram substituídos por arenas modernas voltadas para o consumo de alto padrão.
O ingresso encareceu exponencialmente, transformando a partida em um espetáculo corporativo exclusivo.
A classe trabalhadora de baixa renda foi empurrada para fora dos estádios devido aos preços proibitivos dos ingressos e da alimentação interna.
O dreno das apostas esportivas
Excluído do ambiente físico das arquibancadas, o trabalhador consome o esporte de forma fragmentada por telas digitais ou transmissões na internet.
Esse consumo periférico é massivamente bombardeado pela maior força de injeção financeira do futebol contemporâneo: as empresas de apostas (bets).
A engrenagem se fecha retirando o dinheiro de subsistência do trabalhador e convertendo sua paixão em vício de especulação financeira.
A desterritorialização do futebol brasileiro e o distanciamento da seleção
Essa transição do futebol como identidade nacional para o futebol como outdoor de marcas globais explica o divórcio afetivo entre o povo brasileiro e a Seleção.
Os atletas são exportados tão cedo que o torcedor comum sequer constrói memórias afetivas com eles nos campeonatos locais.
A Seleção Brasileira contemporânea assemelha-se a um “catado”: um agrupamento dos melhores operários táticos de cada liga estrangeira, que jogam sob estilos diferentes e carecem de entrosamento orgânico em campo.
A declaração recente do atacante Rafinha — ao afirmar que não deve satisfações de seu desempenho profissional a ninguém além de sua própria família — ilustra de forma transparente o fenômeno da desterritorialização.
Você pode assistir à análise desta declaração no vídeo abaixo:
Ao atuar pela representação nacional, o atleta assume o papel de funcionário público da paixão popular e deve, sim, prestar contas à torcida que financia o espetáculo.
Esse distanciamento afetivo faz com que a indústria do entretenimento esportivo viva em um estado cômodo de nostalgia, apelando exaustivamente para os títulos passados de 1970, 1994 e 2002 para tentar resgatar uma conexão popular que as próprias engrenagens do capital destruíram.
A contratação de técnicos de renome europeu ou lampejos de genialidade individual de atletas isolados funcionam apenas como soluções paliativas para um problema que não é puramente técnico ou tático, pois a crise do futebol brasileiro é estrutural.
A transformação do esporte em ativo de consumo massificado esvaziou sua função social unificadora.
Resta ao torcedor compreender os mecanismos econômicos dessa engrenagem para entender que a mercantilização do jogo, longe de democratizá-lo, retirou do povo o direito ao seu próprio patrimônio cultural.
Conclusão
A análise concreta da realidade afasta qualquer ilusão nostálgica. O futebol brasileiro passou por uma transição muito bem elaborada para atender a interesses bem específicos.
O esporte deixou de ser um espaço de reconhecimento coletivo, popular e de afirmação da identidade nacional para se transformar em um gigantesco balcão de negócios e especulação.
Hoje, a Seleção Brasileira funciona menos como o time do povo e mais como um outdoor ambulante para a Nike, para as empresas de apostas e para grandes corporações internacionais.
As ruas pintadas e a empolgação genuína da população trabalhadora durante os períodos de torneio dão lugar, a cada ano, a manifestações mais pontuais e menos frequentes.
O torcedor comum percebe, mesmo de forma difusa, que o esporte foi sequestrado pela lógica da financeirização.
O caso emblemático de convocações pautadas por ações de marketing de jogadores lesionados, em detrimento do encaixe tático e técnico coletivo, apenas escancara como o jogo nos bastidores se sobrepõe ao espetáculo dentro das quatro linhas.
O futebol brasileiro está preso em uma sinuca de bico armada pelo modelo neoliberal.
Diante desse cenário de mercantilização extrema e descaracterização estrutural, resta ao torcedor resistir à exclusão e cobrar o resgate da soberania do nosso patrimônio cultural.
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Referências:
ARTIGOS
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SOUZA, Ricardo da Silva; MACHADO, Tomás Pereira; PARRÉ, José Luiz; CARDOZO, Camila Leão. O impacto da Lei Pelé nas negociações dos atletas do futebol brasileiro no período entre 2018 e 2019: uma análise com enfoque na Teoria dos Jogos. Revista de Economia, v. 43, n. 80, p. 101-131, 2022.
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MATÉRIAS
Exportação de jogadores brasileiros e mercado global:
https://thefootball.com.br/brasil-lidera-ranking-global-de-transferencias-em-janeiro-entenda/
Jogadores estrangeiros no Brasil e limite de estrangeiros:
SAF e financeirização dos clubes brasileiros:
https://agemt.pucsp.br/noticias/safs-transformam-o-futebol-nacional-mas-ainda-representam-desafios
https://www.eco.unicamp.br/images/arquivos/artigos/TD/TD452.pdf
Identificação dos brasileiros com a seleção:



