Grupo de Leitura

Pintura de Benedito Calixto retrata a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, liderada pelo marechal Deodoro da Fonseca, iniciando o período da República Velha. Fonte: Agência Senado

República Velha (1889-1930): resumo do que foi, principais características, economia, eleições e revoltas

No artigo anterior sobre a história do Brasil, focado no período imperial, você viu que a queda da monarquia foi provocada principalmente pela abolição da escravidão em 1888, instituição que garantia o suporte político do Império junto às elites latifundiárias tradicionais. Sem esse apoio conservador, a Coroa tornou-se inútil para o projeto das classes dominantes ascendentes.

Assim, em 1889 se inicia o período da República Velha, ou Primeira República, um modelo que começava a fazer sentido para a burguesia nacional ao colocar o Brasil nos rumos do capitalismo moderno.

Mas o estudo da República Velha (período que vai de 1889 a 1930) exige o rompimento com as narrativas liberais tradicionais que enxergam a Proclamação da República como um marco automático de modernização e conquista democrática. 

Sob a perspectiva materialista e baseada na economia política, a grande tese para sintetizar esse momento histórico é a de que o velho nasce.

O regime republicano não surgiu para subverter as estruturas de opressão herdadas do período colonial e imperial. Pelo contrário: ele nasceu para preservá-las sob uma nova roupagem institucional, mantendo a exclusão histórica, o latifúndio e o arranjo de um capitalismo dependente na divisão internacional do trabalho.

Da transição do Império à República da Espada (1889-1894)

A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, constituiu um processo tenso, marcado pelo que a sociologia define como uma “reforma por cima”

O movimento vitorioso consolidou-se a partir de uma aliança tática entre dois grupos com interesses profundamente divergentes, mas unidos pela rejeição ao centralismo monárquico de Dom Pedro II:

  • As elites agrárias: a fatia da sociedade composta por grandes proprietários de terra em diversos Estados, concentrado principalmente nas regiões de São Paulo (maior polo produtor de café do país), Minas Gerais (maior colégio eleitoral) e o apoio de outros setores. Exigiam o fim do centralismo imperial e do Poder Moderador. Eles buscavam implantar um modelo federalista descentralizado e de ampla autonomia para os estados, inspirado diretamente na experiência dos Estados Unidos
  • O exército: fortemente influenciado pela doutrina filosófica do positivismo, o setor militar criticava o sistema de privilégios e favorecimentos pessoais da corte monárquica, que barrava a ascensão técnica por mérito. O Exército defendia um poder central forte, hierarquizado e tutor da modernização com controle do conflito social.

A dominância inicial do grupo militar estendeu-se por sete anos, período que ficou conhecido na historiografia como a República da Espada, governada sucessivamente por dois marechais: Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.

O governo de Marechal Deodoro da Fonseca e a crise do Encilhamento

O governo provisório de Deodoro da Fonseca (1889-1891) na República Velha foi marcado por extrema instabilidade política. Visto com desconfiança por setores civis devido ao seu passado monarquista, Deodoro enfrentou forte oposição parlamentar.

Para forçar um processo acelerado de industrialização e consolidação capitalista — inspirado nas Sociedades Anônimas do Reino Unido e dos Estados Unidos —, seu ministro da Fazenda, Rui Barbosa, implementou uma política econômica que se mostrou um desastre.

Rui Barbosa permitiu a emissão massiva de papel-moeda sem fundos de reserva (lastro) em bônus governamentais, facilitando o crédito para a abertura de empresas.

Essa injeção descontrolada de dinheiro gerou um frenesi especulativo na Bolsa de Valores. 

O movimento de compra e venda de ações de empresas que sequer existiam passou a ser comparado pelos jornais da época à agitação dos apostadores nas corridas de cavalo, o que deu à crise o nome de Política do Encilhamento.

As empresas fantasmas faliram rapidamente, a inflação disparou, a moeda desvalorizou-se e as finanças públicas deterioraram-se de forma crônica, piorando severamente as condições de vida das classes populares.

Isolado e sob pressão das oligarquias que dominavam o Congresso através da Lei de Responsabilidades, Deodoro tentou dar um golpe de Estado e fechar o parlamento em novembro de 1891. 

A reação foi imediata: almirantes da Marinha rebelaram-se na Primeira Revolta da Armada, apontando os canhões dos cruzadores na Baía de Guanabara contra o Rio de Janeiro e exigindo a renúncia imediata do marechal. 

Sem apoio, Deodoro abdicou em 23 de novembro de 1891.

O governo de Floriano Peixoto: o “Marechal de Ferro”

O vice-presidente, Floriano Peixoto, assumiu o poder violando frontalmente a Constituição recém-promulgada de 1891, que determinava a convocação de novas eleições caso a chefia do Executivo ficasse vaga antes de completados dois anos de mandato. 

Floriano ignorou o preceito constitucional e justificou sua permanência sob o pretexto de liderar um “governo ditatorial de salvação nacional” para pacificar o país. 

Ao contestarem sua manobra, generais do Exército assinaram o Manifesto dos Treze Generais. Floriano agiu e prendeu os opositores transferindo-os para a reserva.

Alinhado politicamente à oligarquia cafeeira paulista, Floriano Peixoto esmagou com violência a Segunda Revolta da Armada e a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul (1893-1895). 

Por conta da intransigência de suas ações, Floriano passou a ser conhecido como “Marechal de Ferro”. 

Para angariar sustentação popular nas camadas urbanas empobrecidas, o governo de Floriano adotou medidas centralizadoras de forte apelo popular, tais como:

  • o tabelamento do preço dos alimentos;
  • a isenção de impostos sobre a carne;
  • o controle sobre o preço dos aluguéis;
  • e a demolição de cortiços para a construção de casas populares. 

Sua gestão estabilizou o regime e pavimentou a transição para o domínio das oligarquias civis na eleição seguinte.

A terceira força: o Rio Grande do Sul e a trincheira positivista

Embora a historiografia tradicional foque quase exclusivamente no eixo São Paulo e Minas Gerais, a compreensão da República Velha exige também a análise do terceiro pilar fundamental do período: a oligarquia do Rio Grande do Sul

Diferente dos oligarcas paulistas e mineiros, a elite gaúcha consolidou-se sob a forte e direta influência do positivismo, concentrado tanto nos quadros do Exército baseados na fronteira sul quanto em setores da classe média e das elites civis regionais.

Essa diferenciação ideológica rachava o topo da classe dominante:

  • Enquanto os cafeicultores de SP e MG defendiam o liberalismo econômico e um federalismo extremado para esvaziar o poder da União, os positivistas gaúchos rejeitavam o autonomismo liberal completo.
  • Eles defendiam um modelo de governo centralizado, forte e autocrático, onde o Estado funcionasse como um “tutor” técnico da modernização econômica e um mediador direto dos conflitos de classe.

Sob a liderança de figuras locais, a proposta gaúcha visava garantir a proteção e o controle social dos trabalhadores e reprimir com violência qualquer mobilização popular considerada subversiva.

Essa característica transformou o Rio Grande do Sul no ponto de apoio militar e político indispensável para a sustentação do governo de Floriano Peixoto e no palco da Revolução Federalista.

O conflito armado explodiu justamente devido à cisão interna da elite gaúcha, opondo os centralistas positivistas (aliados de Floriano) aos federalistas da oposição, que exigiam maior autonomia política e contestavam a centralização autoritária.

A vitória esmagadora das forças florianistas consolidou a escola política gaúcha que, combinando autoritarismo de Estado e centralização, manteve-se como uma força armada latente contra a hegemonia cafeeira, culminando décadas mais tarde na fratura definitiva do regime na Revolução de 1930, sob a liderança de Getúlio Vargas.

A Constituição de 1891: a engenharia da exclusão

A promulgação da Constituição de 1891 consolidou a República dos Estados Unidos do Brasil (nome oficial do país que durou até 1967), trazendo transformações formais inspiradas no liberalismo estadunidense, tais como:

  • A exclusão do Conselho de Estado e do Poder Moderador.
  • A instituição do regime presidencialista, com mandatos temporários de quatro anos para o Executivo e o fim do cargo vitalício para o Senado.
  • A transformação das antigas províncias imperiais em estados confederados, conferindo ampla autonomia política e financeira para que as oligarquias regionais controlassem as rendas geradas pelas exportações agrícolas.
  • A separação oficial entre a Igreja Católica e o Estado, convertendo o país em um Estado laico com liberdade de culto e instituição do casamento civil.

O sistema eleitoral na República Velha e a farsa democrática

A grande contradição da Carta de 1891 residia no seu modelo de cidadania. Embora tenha instituído a eleição direta para os cargos federais, o sistema eleitoral na República Velha foi estruturado como um mecanismo profundamente excludente. 

O direito ao voto foi concedido de forma universal apenas para homens maiores de 21 anos, com barreiras fundamentais: a proibição do voto para analfabetos, além de mendigos, soldados rasos, mulheres e padres.

Num país historicamente construído sob a lógica da exploração e do latifúndio, onde até mesmo setores das elites agrárias possuíam dificuldades de leitura e escrita, a barreira do analfabetismo excluiu mais de 95% da população brasileira do processo eleitoral

Em termos práticos, em uma nação de aproximadamente 20 milhões de habitantes, o destino político do país era decidido por um colégio eleitoral ínfimo de 100 mil a 150 mil pessoas.

Para agravar a farsa democrática, o voto não era secreto, mas sim aberto

O eleitor era obrigado a declarar publicamente ou registrar em cédula aberta sua escolha diante das mesas receptoras. 

Esse arranjo permitia que os grandes proprietários de terras — os coronéis — monitorassem o recreio eleitoral dos votantes sob sua dependência econômica. 

O voto aberto foi a ferramenta basilar que viabilizou o surgimento do coronelismo e do voto de cabresto, perpetuando as fraudes nas atas eleitorais, o clientelismo e o controle absoluto dos clãs familiares sobre a política municipal e estadual.

O plebiscito de 102 anos: a distância abissal entre as autoridades republicanas e o povo expressa-se em um detalhe cronológico bizarro. A Constituição de 1891 previa expressamente a realização de um plebiscito para que a população ratificasse a forma de governo (República ou Monarquia). Devido à instabilidade instalada pelas elites na República da Espada, a consulta foi ignorada. O plebiscito constitucional só acabou sendo realizado 102 anos depois, em 1993.

A base da economia na República Velha: dependência e commodities

A base da economia na Primeira República brasileira permaneceu umbilicalmente atrelada ao modelo agrário-exportador latifundiário, tendo o café como o produto-chefe absoluto da riqueza nacional. 

A Proclamação da República não diversificou o parque produtivo. Pelo contrário, aprofundou as amarras do capitalismo dependente

O Brasil operava na divisão internacional do trabalho cumprindo um papel estrito de fornecedor de commodities agrícolas de baixa complexidade (café, borracha, açúcar) e importador de bens industrializados dos centros imperiais.

A engrenagem dessa dependência estrutural manifestava-se através de três eixos econômicos fundamentais controlados pelas burguesias centrais:

Endividamento crônico

O Estado brasileiro recorria sistematicamente a empréstimos vultosos junto a banqueiros ingleses para cobrir seus déficits orçamentários e financiar a retenção de estoques de café para proteger os lucros dos fazendeiros paulistas, inflacionando a dívida externa.

Entrega de setores estratégicos

Serviços essenciais de infraestrutura e logística nacional foram massivamente concedidos ao capital estrangeiro. Ferrovias escoadoras de grãos pertenciam a companhias inglesas; a iluminação pública a gás e as linhas de transmissão elétrica de grandes centros eram controladas por conglomerados transnacionais, como a empresa canadense Light (Light significando literalmente luz em inglês devido à sua origem corporativa).

Vulnerabilidade cambial

A ausência de diversificação produtiva ou de um parque industrial nacional robusto mantinha o país refém das oscilações de preço do mercado internacional de mercadorias, drenando a liquidez do Estado para o pagamento de juros aos credores externos.

    Conflitos sociais e as revoltas da República Velha

    Longe de corresponder à imagem de uma pacificação ordeira sugerida pelo lema positivista de sua bandeira, a Primeira República foi um dos períodos mais violentos e conturbados da história nacional. 

    As tensões sociais cindiam o país em duas dimensões paralelas: as disputas intra-elites e as insurreições populares de base camponesa.

    Conflitos na camada de cima: disputas oligárquicas

    O arranjo institucional da chamada República das Oligarquias baseava-se em alianças táticas móveis entre os partidos republicanos regionais — com primazia absoluta do Partido Republicano Paulista (PRP, fundado em 1873) e do Partido Republicano Mineiro (PRM, fundado em 1888), que costuravam o controle do governo federal articulando o motor econômico do café ao maior colégio eleitoral do país. 

    No entanto, o pacto de dominação sofria fraturas constantes, resultando em enfrentamentos armados de caráter regionalista, tais como a já citada Revolução Federalista gaúcha e a Revolta de Juazeiro (1914) no Ceará.

    Conflitos na camada de baixo: a revolta dos espoliados

    Na base da pirâmide social, a violenta concentração fundiária, a miséria crônica e a ausência absoluta de canais de diálogo com o poder público empurraram as massas camponesas e urbanas para a contestação aberta do regime. 

    Dentre as principais revoltas da Primeira República, destacam-se a Guerra de Canudos e a Guerra do Contestado.

    Guerra de Canudos (1893–1897)

    Comunidade autogestionária liderada por Antônio Conselheiro no sertão baiano, que reunia milhares de camponeses, ex-escravizados e sertanejos desterrados pelo latifúndio.

    Canudos estruturou uma organização social comunitária baseada na subsistência. Sob a ótica das elites latifundiárias, a experiência representava uma ameaça à ordem social e à disponibilidade de mão de obra barata.

    Canudos foi criminalizada pela imprensa burguesa como um foco “monarquista” e, após 4 expedições, destruída pelo Exército Republicano, que degolou e massacrou mais de 25 mil pessoas.

    Guerra do Contestado (1912–1916)

    Revolta camponesa messiânica estourada na fronteira entre o Paraná e Santa Catarina. Milhares de trabalhadores rurais foram expulsos de suas terras para a construção de uma ferrovia controlada por capitais estadunidenses e para a exploração madeireira de grandes coronéis.

    A comunidade camponesa organizou-se em “redutos sagrados” para contestar a opressão da república latifundiária, sendo massacrada pelas forças estatais em uma campanha militar que usou a aviação militar pela primeira vez no país.

    Ao longo das décadas de 1910 e 1920, novos movimentos sociais de contestação urbana e militar — tais como o Tenentismo, a Coluna Prestes, a Revolta da Chibata e a Greve Geral de 1917 — aprofundaram a crise de legitimidade da ordem oligárquica. 

    As contradições internas e a incapacidade de absorver as demandas da classe trabalhadora urbana e do operariado industrial em expansão minaram as bases da República Velha, cujo colapso definitivo foi selado em 1930 com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder central.

    Conclusão

    O panorama geral da transição do Império à República e o desfecho da República da Espada evidenciam que a queda da monarquia funcionou como um rearranjo tático no topo da pirâmide social

    Longe de representar uma ruptura com o passado, o período demonstrou como as elites regionais — articuladas entre o poder econômico de paulistas e mineiros e a força ideológica militar dos gaúchos — souberam modernizar a superfície jurídica do Estado para preservar a propriedade privada e a acumulação de capital

    Havia uma disputa interna na classe dominante para ver quem controlaria o palácio, mas o objetivo de submeter as maiorias sociais permaneceu inalterado.

    Compreender a República Velha através da lente da economia política é fundamental porque as amarras daquele período continuam operando no Brasil de hoje. 

    A base agroexportadora voltada ao café no século XIX apenas se atualizou para o poder do agronegócio contemporâneo, que dita os rumos do parlamento através da bancada ruralista e mantém a terra concentrada. 

    A farsa do voto de cabresto e do coronelismo municipal encontra eco nas dinâmicas atuais de compra de votos nas periferias e no controle político regional por meio de emendas parlamentares e clientelismo fisiológico.

    Se antes o Estado brasileiro hipotecava sua soberania a banqueiros ingleses e canadenses, concedendo ferrovias e redes como a Light, hoje o país entrega setores estratégicos ao capital estrangeiro através de privatizações e drena quase metade de seu orçamento público para o pagamento de juros da dívida pública a especuladores do rentismo.

    A estrutura de exclusão, dívida e submissão à divisão internacional do trabalho que nasceu ali permanece viva na raiz das nossas contradições. 

    Superar esse ciclo exige entender que o direito ao futuro não nascerá de concessões institucionais “por cima”, mas sim da capacidade de organização da classe trabalhadora para romper, de uma vez por todas, com o passado que continua a governar o presente.

    Se este artigo ajudou você a entender melhor a República Velha, compartilhe nas suas redes para alcançarmos cada vez mais pessoas.

    E se você deseja aprender mais sobre as contradições e as desigualdades do nosso país, não deixe de conhecer meu curso de História do Brasil, um curso fundamental para entender o passado e transformar o presente.

    Continue aprendendo