Grupo de Leitura

Ilustração conceitual da sociedade do consumo: um homem em preto e branco expressa exaustão no centro de uma metrópole cinzenta, cercado por um turbilhão vibrante e colorido de ícones de redes sociais, logos de streamings e anúncios de 'liquidação'. Ao fundo, um grande outdoor exibe a ordem 'CONSUMA!', simbolizando o bombardeio do marketing digital e o encurtamento das perspectivas humanas.

A sociedade do consumo: por que o consumismo parece ser o único refúgio?

Vivemos numa era onde a palavra “crise” perdeu seu sentido original. Se antes a crise era um momento de ruptura entre dois períodos de estabilidade, hoje ela é a própria norma. 

Crise climática, econômica, sanitária e de saúde mental se sobrepõem, formando o que já conhecemos como crise estrutural do capital.

Neste cenário, surge um fenômeno sintomático. Quando o futuro se torna inalcançável, o consumo vira a única prova de humanidade.

Esta é a reflexão que trago neste artigo, a partir de um bate-papo entre o Edson Castro e o professor psicanalista da USP, Christian Dunker, sobre a dor que a sociedade do consumo tenta esconder: a degradação da nossa estrutura social e econômica. 

Se quiser assistir à análise completa no meu canal Gustavo Gaiofato, é só dar o play no vídeo aqui em cima.

O encurtamento do futuro e o consumo como refúgio

Um dos pontos que mais me chamou a atenção na conversa foi como este cenário de crises sobrepostas alterou nossa percepção de tempo

Como bem pontuou o professor Christian Dunker no vídeo, o próprio conceito de “crise” está falindo, porque a crise se tornou o “agora”.

Isso atinge em cheio a juventude trabalhadora. 

A Geração Z vive em uma realidade onde o futuro está sendo constantemente adiado, ou melhor, cancelado. 

Se olharmos para a situação concreta, percebemos que é cada vez mais inalcançável, do ponto de vista financeiro e econômico, construir uma vida com estabilidade a longo prazo

O sonho da casa própria ou da constituição de algum tipo de patrimônio tornou-se uma miragem.

Quando o futuro se encurta dessa forma, o que sobra é o agora. E é aqui que a sociedade do consumo opera com força total. 

O consumo passa a ser a única expressão de felicidade possível, o único reconhecimento de existência que resta. 

Ele vira uma válvula de escape subjetiva, um resíduo da capacidade de sonhar em um mundo que tenta reduzir o trabalhador a um “ser de necessidade”, aquele que só precisa de comida e teto, sem direito ao desejo.

Então, se eu não posso planejar uma vida daqui a dez anos, eu vou gastar o que tenho agora em um café supervalorizado, em um pequeno luxo ou em uma experiência imediata. 

Não é falta de juízo. É uma resposta à falta de perspectiva.

A aceleração da mercadoria-informação

Também vivemos uma lógica onde tudo, absolutamente tudo, vem se transformando em mercadoria. E não falo apenas de objetos físicos. Hoje, a própria informação entrou nessa roda de produção e circulação acelerada de capital.

A forma como consumimos redes sociais é o reflexo perfeito disso. 

Quando abrimos um Reels ou um vídeo curto e consumimos aquela informação uma atrás da outra, estamos repetindo a lógica elementar da mercadoria: ela nunca vai satisfazer totalmente nossa expectativa. 

A satisfação é instantânea e momentânea. No segundo seguinte, a mercadoria torna-se inútil, perde seu valor de uso e precisamos desesperadamente renovar esse consumo com o próximo vídeo.

Essa aceleração constante gera um volume de coisas que nos faz “pirar”. 

É um consumo desenfreado de informação que não serve para nossa formação, não serve para nossa experiência com a realidade, serve apenas para manter a engrenagem do capital girando. 

Cada vez que “scrollamos” a tela, é como se estivéssemos comprando algo novo para preencher um vazio que a própria sociedade do consumo criou.

A perda do acesso e a virtualização da vida

Outro sintoma grave da sociedade do consumo é a transformação de serviços essenciais e do lazer em assinaturas intermediadas por gigantescas Big Techs. 

Antigamente, você tinha acesso físico e permanente a um divertimento, como um DVD.

Hoje, você paga pelo direito de usar, por um atravessador que pode remover aquele conteúdo ou te bombardear de anúncios a qualquer momento — o que, para mim, é o auge do absurdo: ter anúncios dentro de um streaming pago.

Isso significa que estamos perdendo o acesso concreto às coisas. 

Há uma diminuição de espaços públicos de lazer, como cinemas e parques, e um aumento exponencial de shopping centers e prédios. 

Ou seja, na sociedade do consumo, a vida social é empurrada para espaços privados de consumo, onde sua humanidade só é reconhecida se você tiver um cartão de crédito na mão.

A democracia baseada no consumo e a armadilha política

Como o professor Dunker mencionou no bate-papo, nos primeiros governos do PT, vivemos o que se poderia chamar de uma “democracia à base de consumo”. 

Houve a inclusão e a humanização de uma grande parcela da população que, pela primeira vez, podia dizer: “eu não sou apenas um ser de necessidade, eu posso desejar um shampoo melhor, um batom, uma viagem”.

Subjetivamente, isso foi fundamental. No entanto, do ponto de vista materialista, isso foi uma armadilha

Se você constrói uma sociedade onde o reconhecimento da humanidade do sujeito é baseado exclusivamente no consumo, você cria um sujeito que depende da renovação constante desse processo.

O problema é que as crises no capitalismo são cíclicas

Elas não são erros, mas mecanismos de reajuste onde o capital precisa destruir valor, seja fechando fábricas, demitindo em massa ou derretendo o poder de compra, para poder se reorganizar e voltar a crescer sobre novas bases de exploração. 

No fim das contas, o objetivo é sempre o mesmo: manter as altas taxas de lucro da burguesia.

E quando a crise se instala — como vimos a partir de 2013 e 2014 — esse sujeito, que antes conseguia consumir, perde sua base de identidade

Sem um discurso de classe e sem uma mobilização permanente que vá além do “ter”, as pessoas deixam de reconhecer a legitimidade naquele governo que as incluiu apenas via consumo.

Elas se sentem traídas pela mesma lógica que as abraçou. 

Não é à toa que uma parte dos eleitores do Lula que cresceu consumindo nos anos 2000 acabou apoiando a extrema-direita na figura do Bolsonaro em 2018. 

A direita mobiliza os anseios da classe trabalhadora pela continuação do seu reconhecimento enquanto consumidores, prometendo uma volta a um poder de compra que o próprio sistema capitalista está destruindo

Como diz Rui Mauro Marini em O Reformismo e a Contra-revolução, se não há uma consciência de classe sólida, o colapso do consumo leva ao colapso do apoio político.

Bets, Tigrinho e a cultura do “salto”

Essa falta de estrutura e de perspectiva de futuro nos leva também ao fenômeno das apostas e dos jogos, como as “Bets” e o “Tigrinho”. Frequentemente, vemos um debate moralista sobre isso, como se quem apostasse fosse apenas “bobo”. Mas a análise sobre esse assunto precisa ser material.

Quem aposta os únicos R$ 50 que sobraram na carteira não tem mais nada a perder. Os cinquenta reais não mudarão nada em sua vida, mas os “possíveis” R$ 10 mil que ele pode virar fará toda a diferença.

Ou seja, quem aposta não está necessariamente sendo enganado por uma falta de inteligência. Está respondendo a um grau de necessidade excepcional. 

Se a “caminhada” — o trabalho duro, o estudo, a economia de longo prazo — não dá resultados em uma economia estagnada, o sujeito aposta no “salto”.

A cultura do coach vende exatamente isso: o milagre, a vitória rápida, o salto por cima do precipício para alcançar uma suposta prosperidade. 

Em uma realidade onde as condições de existência estão se desmanchando, qualquer esperança de mudar de vida instantaneamente se torna um farol. 

É o “sonho da loteria” substituindo a perspectiva de direitos sociais estáveis.

Conclusão

O professor Dunker fala algo muito forte no vídeo sobre a divisão da sociedade entre as “super-pessoas” (os bilionários) e as “infra-pessoas” (as que podem morrer e não fazem falta). 

A sociedade do consumo tenta nos convencer de que, para sermos pessoas, precisamos consumir.

Mas não podemos ser reduzidos a esses “seres de necessidade”, nem a “meros consumidores”. 

Nossa humanidade está na nossa capacidade de desejar, de sonhar e, principalmente, de nos organizarmos

Enquanto nos reconhecermos apenas como consumidores, estaremos à mercê das crises cíclicas do capital.

Precisamos desvincular a ideia de reconhecimento social da posse de mercadorias. 

A saída não é o isolamento ou a nostalgia, mas a retomada de um discurso de classe que exija o direito à vida, ao lazer e ao futuro, independentemente da nossa capacidade de compra.

Não somos bobos por cair no papo do consumo ou do coach. Somos trabalhadores em busca de sentido em um mundo onde tudo é transformado em mercadoria. 

Por isso, nossa tarefa é entender esse processo para, assim, poder transformá-lo.

Gostou da análise? Então compartilhe este artigo com quem ainda acha que consumo é sinônimo de cidadania.

Continue aprendendo