“Os comunistas querem tomar sua casa”, “Estamos vivendo numa ditadura comunista”, “O comunismo matou milhões”.
As mentiras sobre o comunismo costumam circular em frases simples como essas.
O problema é que, por trás delas, há questões históricas, políticas e teóricas que não cabem em slogans de poucos segundos.
Isso não significa que os governos socialistas que já existiram não são passíveis de críticas, que processos de repressão não tenham existido ou que qualquer dado negativo seja automaticamente propaganda anticomunista.
Significa apenas que história exige método de análise.
Antes de concluir que determinado acontecimento foi causado “pelo comunismo”, é preciso perguntar:
- Qual fato estamos analisando?
- Qual é a fonte?
- Qual é o contexto?
- Existe relação causal?
- Estamos falando de comunismo, socialismo, marxismo ou de um governo específico?
Continue a leitura para entender o que existe por trás de nove das principais mentiras sobre o comunismo.
Mas se você ainda tem dúvidas sobre os conceitos básicos, comece pelo nosso artigo sobre o que é comunismo.
Por que existem tantas mentiras sobre o comunismo?
O anticomunismo não surgiu com as redes sociais. Ao longo dos séculos XX e XXI, o termo “comunista” foi usado para identificar movimentos revolucionários, governos socialistas e partidos marxistas, assim como para atacar adversários que pouco ou nada tinham a ver com o comunismo.
Essa elasticidade tem uma função política.
Quando qualquer política de distribuição de renda, serviço público ou intervenção estatal passa a ser classificada como “comunista”, a palavra deixa de definir um projeto político específico e passa a funcionar como ameaça.
No Brasil, esse processo tem uma longa história. O anticomunismo esteve presente antes do golpe de 1964, durante a ditadura empresarial-militar e voltou a ocupar posição central no debate político contemporâneo.
O medo do comunismo também é uma disputa de classe
O anticomunismo é mais fácil de compreender quando voltamos àquilo que o comunismo propõe.
Se um movimento político defende transformar a propriedade dos meios de produção, questionar o poder econômico da burguesia e organizar os trabalhadores como força política, é natural que os grupos que se beneficiam dessas relações tenham interesse em combatê-lo.
Essa disputa não acontece somente por meio da repressão direta. Ela também acontece no campo das ideias e na disputa do pensamento geral (o senso comum).
Se trabalhadores passam a enxergar outros trabalhadores organizados como inimigos perigosos em vez de reconhecer interesses que possuem em comum, torna-se muito mais difícil construir organizações coletivas capazes de disputar salários, direitos, condições de trabalho e, em uma perspectiva revolucionária, o próprio controle da produção.
Por isso, uma das funções históricas da propaganda anticomunista foi associar qualquer forma mais radical de organização dos trabalhadores a uma ameaça à família, à religião, à liberdade ou à propriedade pessoal.
É preciso reconhecer que o anticomunismo possui história, interesses políticos e condições materiais próprias.
E conhecer essa história ajuda a entender por que algumas das mesmas afirmações atravessaram décadas, países e gerações, e continuam aparecendo até hoje quando se fala em comunismo.
9 mentiras sobre o comunismo que você precisa parar de acreditar
A partir de agora, vamos abordar as 9 mentiras sobre o comunismo que mais circulam na internet. São elas:
- O comunismo é uma utopia;
- No comunismo todo mundo precisa ser igual;
- Os comunistas querem tomar minha casa;
- Comunistas não podem ser religiosos;
- O PT e o Lula são comunistas;
- O Brasil é um país comunista;
- O comunismo matou 100 milhões de pessoas;
- Comunismo é genocídio;
- O comunismo causa fome.
Acompanhe!
1. O comunismo é uma utopia
Mentira se “utopia” significar um modelo perfeito de sociedade criado previamente e depois aplicado à realidade.
O comunismo de corrente marxista não parte da construção imaginária de uma sociedade ideal.
Pelo contrário. Uma das rupturas de Marx e Engels com correntes socialistas anteriores está na tentativa de compreender as condições materiais e históricas existentes antes de formular uma estratégia de transformação social.
É daí que surge a conhecida distinção entre socialismo utópico e socialismo científico.
Engels dedica uma obra inteira a essa diferença. Em Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, explica que a concepção materialista da história procura as causas das transformações sociais nas mudanças das formas de produção e troca, e não simplesmente na descoberta de uma ideia abstrata de justiça.
Além disso, o comunismo não pode ser tratado como uma sociedade perfeita desenhada de antemão. Sua construção depende das condições materiais, das contradições e das escolhas feitas em cada processo histórico.
O comunismo nunca prometeu um “paraíso na Terra” e não acabaria com todos os problemas humanos. Isso não significa que comunistas não tenham objetivos ou imaginem outra organização social.
Ter um horizonte político e inventar uma sociedade perfeita são coisas diferentes.
Portanto, afirmar que o comunismo é utópico porque pretende transformar profundamente a sociedade não explica o marxismo. Apenas usa “utopia” como sinônimo de algo considerado impossível.
2. No comunismo todo mundo precisa ser igual
Mentira. O objetivo do comunismo não é transformar pessoas diferentes em indivíduos idênticos.
Essa confusão aparece quando igualdade é tratada como se significasse que todos deveriam possuir exatamente os mesmos bens, receber o mesmo salário ou viver da mesma maneira.
Não é isso que Marx propõe.
Na Crítica do Programa de Gotha, ele critica justamente a ideia de um “direito igual” abstrato aplicado a pessoas que possuem condições e necessidades diferentes.
Marx observa, por exemplo, que dois trabalhadores podem oferecer a mesma quantidade de trabalho, mas viver em condições familiares distintas. Um pode ter filhos; outro, não. Aplicar mecanicamente o mesmo critério não produz necessariamente o mesmo resultado.
Por isso, a discussão marxista não se resume a como fazer todo mundo ter a mesma coisa, e sim a como superar uma organização social na qual uma classe controla os meios de produção enquanto outra precisa vender sua força de trabalho para sobreviver.
Também é incorreto resumir o marxismo a um projeto de “distribuir melhor a riqueza” ou produzir “mais igualdade”.
Isso não significa que desigualdades econômicas sejam irrelevantes para os comunistas.
Significa que a crítica vai além da diferença entre quem possui mais ou menos dinheiro. Ela busca atingir a estrutura que produz classes sociais com posições distintas dentro da economia.
3. Os comunistas querem tomar minha casa
Mentira. Propriedade pessoal e propriedade privada dos meios de produção não são a mesma coisa.
Talvez nenhuma das mentiras sobre o comunismo seja tão repetida quanto a ideia de que um governo comunista entraria em sua casa para confiscar a escritura dela, celular, roupas, televisão ou escova de dentes.
Essa interpretação ignora o significado que a propriedade assume na crítica marxista.
No Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels não propõem a “abolição da propriedade em geral”. Eles tratam especificamente da propriedade burguesa, isto é, daquela ligada ao capital e às relações de exploração do trabalho assalariado.
Existe uma diferença evidente entre possuir um celular para uso pessoal e possuir uma fábrica na qual centenas de pessoas precisam vender sua força de trabalho.
Da mesma forma, morar em uma casa não produz a mesma relação econômica que controlar grandes extensões de terra, redes empresariais, bancos ou estruturas produtivas capazes de gerar capital a partir do trabalho de terceiros.
A discussão marxista sobre propriedade está relacionada a quem controla a produção da riqueza social.
Para compreender esse assunto com mais profundidade, vale ler também:
4. Comunistas não podem ser religiosos
Mentira. Uma pessoa pode ser religiosa e comunista, embora exista uma tensão filosófica entre marxismo e explicações metafísicas.
Esse é um exemplo no qual a resposta precisa de duas partes.
Primeiro: não existe uma regra segundo a qual toda pessoa comunista seja obrigada a abandonar sua religião.
Um comunista pode ser religioso e não existe um caráter proibitivo sobre a crença pessoal.
Movimentos como a Teologia da Libertação mostram, inclusive, que religiosidade e organização política da classe trabalhadora já se cruzaram historicamente.
Segundo: o marxismo é materialista.
Isso significa que uma análise marxista da economia, da política ou das relações sociais não pode recorrer à vontade divina ou a forças sobrenaturais como explicação histórica.
Marx critica a religião como produto de condições sociais concretas. Em um dos seus trechos mais conhecidos, chama a religião de expressão do sofrimento real e de protesto contra esse sofrimento.
Lenin, décadas depois, defenderia explicitamente que o Estado não deveria discriminar cidadãos por suas crenças e que cada pessoa deveria ser livre para professar uma religião ou nenhuma. Ao mesmo tempo, sustentava a posição materialista do partido socialista.
Portanto, uma pessoa pode ter fé.
O que muda é que, dentro do método marxista, essa fé não funciona como explicação para as relações econômicas e políticas.
Então o marxismo é uma religião?
Não. Comparar marxismo com religião porque ambos possuem seguidores, textos influentes ou objetivos políticos é uma analogia, não uma definição.
Apresentar o proletariado como uma espécie de “povo escolhido” e o comunismo como uma promessa de “paraíso na Terra” distorce categorias políticas, históricas e econômicas ao transformá-las em equivalentes religiosos.
No marxismo, o proletariado não ocupa uma posição central por ter sido “escolhido” para salvar a humanidade, mas pelo lugar que ocupa nas relações de produção capitalistas.
Da mesma forma, o comunismo não aparece como uma promessa de redenção ou perfeição, mas como um projeto de transformação das relações sociais existentes.
O marxismo pretende analisar relações sociais a partir da realidade histórica e material. Concordar ou discordar de suas conclusões é uma discussão possível. Transformá-lo em religião para dispensar essa discussão é outra coisa.
Para se aprofundar nesse tema, assista ao meu vídeo: Comunismo e religião: horizontes e limites.
5. O PT e o Lula são comunistas
Mentira. O Partido dos Trabalhadores (PT) não é um partido comunista e não há base política ou programática para classificar o presidente Lula como comunista.
Essas afirmações ganharam tanta presença no debate brasileiro que muita gente usa “PT”, “socialismo” e “comunismo” como se fossem palavras intercambiáveis.
Não são.
Um partido e um governo comunista, dentro da tradição marxista, tem como horizonte a superação do capitalismo, a transformação das relações de propriedade dos meios de produção e a conquista do poder político pela classe trabalhadora.
O PT possui outra trajetória, outra composição e outra estratégia política.
Além disso, dizer que seus governos tenham substituído o capitalismo pelo socialismo está fora da realidade.
Durante os governos Lula e Dilma:
- a propriedade privada dos meios de produção continuou existindo;
- bancos privados continuaram operando e lucrando como nunca;
- grandes empresas permaneceram privadas;
- o trabalho assalariado continuou organizando a economia e não ocorreu uma ruptura com a classe capitalista brasileira.
Os governos petistas podem ser compreendidos dentro de uma lógica social-liberal: mantêm políticas sociais e alguma atuação redistributiva, mas preservam as estruturas fundamentais do capitalismo.
Chamar qualquer governo minimamente à esquerda do espectro político de “comunista” não amplia nossa compreensão sobre política. Só apaga diferenças importantes entre social-democracia, social liberalismo, socialismo e comunismo.
6. O Brasil é um país comunista
Mentira. O Brasil não é um país comunista, nem sua economia está organizada segundo os princípios de uma sociedade comunista.
A própria Constituição Federal ajuda a responder essa questão. O Brasil é definido como um Estado Democrático de Direito e tem entre seus fundamentos os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.
Quando trata da economia, a Constituição é ainda mais explícita. O artigo 170 estabelece uma ordem econômica fundada na livre iniciativa e reconhece, entre seus princípios, a propriedade privada e a livre concorrência.
Essas características não correspondem à superação das relações capitalistas de produção proposta pelo comunismo.
No Brasil, pessoas e empresas podem possuir meios de produção, contratar trabalho assalariado, investir capital, obter lucro e competir no mercado.
Bancos privados, indústrias, redes varejistas, propriedades rurais e empresas de diferentes portes continuam pertencendo a agentes privados.
Ao mesmo tempo, o Estado brasileiro mantém empresas públicas, regula atividades econômicas, cobra impostos, oferece serviços públicos e desenvolve políticas sociais.
Nada disso, isoladamente, transforma um país em comunista.
Estado atuando na economia não é sinônimo de comunismo.
Uma transformação desse tipo envolveria mudanças profundas nas relações de propriedade, na organização da produção e na própria estrutura econômica da sociedade.
Portanto, independentemente de quem ocupe a Presidência da República, classificar o Brasil atual como um país comunista não corresponde à sua organização política, jurídica ou econômica.
7. O comunismo matou 100 milhões de pessoas
Não existe consenso historiográfico que permita tratar “100 milhões de mortes” como uma cifra exata e indiscutível causada pelo comunismo.
Esse provavelmente é o tema mais sensível entre as mentiras sobre o comunismo, justamente porque exige evitar dois erros opostos.
O primeiro seria dizer:
“100 milhões é um número absolutamente comprovado e todo mundo morreu diretamente por causa do comunismo.”
O segundo:
“Nada aconteceu, ninguém morreu e tudo é invenção.”
Nenhuma dessas posições ajuda a estudar a história.
Experiências socialistas do século XX tiveram episódios documentados de repressão política, execuções, prisões, expurgos, fome e violência de Estado.
A discussão começa quando fenômenos diferentes são somados em um único número e atribuídos diretamente a uma ideologia.
A cifra dos 100 milhões ficou especialmente conhecida com a publicação de O Livro Negro do Comunismo, em 1997, coordenado pelo historiador Stéphane Courtois.
Mas nem sequer os autores da obra concordaram integralmente com sua apresentação.
A introdução de Courtois, inclusive a comparação entre aproximadamente 100 milhões de mortos atribuídos ao comunismo e 25 milhões ao nazismo, gerou forte controvérsia.
Estudos sobre a recepção do livro registram que coautores como Nicolas Werth e Jean-Louis Margolin rejeitaram publicamente o total de 100 milhões e criticaram a forma como Courtois construiu sua argumentação.
A pergunta correta, portanto, não deveria ser “Quantos morreram?”. É preciso perguntar também:
- Quem está sendo contabilizado?
- Em qual período?
- Morto por qual causa?
- Há documentação?
- Mortes em guerras estão incluídas?
- Mortes provocadas por fome entram na conta?
- Como se distingue mortalidade decorrente de condições anteriores de mortalidade causada por determinada política?
- Todos os países e acontecimentos estão sendo contabilizados segundo o mesmo critério?
Uma pessoa pode chegar a números diferentes dependendo das respostas.
É por isso que apresentar “100 milhões” como uma verdade matemática encerra um debate historiográfico que, na realidade, continua aberto.
Então ninguém morreu em experiências socialistas?
Também não. Essa seria apenas outra falsificação.
A questão é que reconhecer mortes, repressão e decisões políticas desastrosas não nos obriga a aceitar qualquer número, qualquer metodologia ou qualquer relação causal apresentada.
História não funciona por soma de cadáveres para decidir qual sistema político “venceu” uma discussão.
Já debati sobre isso em outro artigo também: Che Guevara matava homossexuais? A verdade sobre Cuba e a comunidade LGBTQIAP+.
8. Comunismo é genocídio
Mentira. Genocídio possui uma definição específica e não é sinônimo de grande número de mortos.
Uma das confusões frequentes nesse debate é transformar “morte”, “repressão”, “massacre”, “crime de Estado” e “genocídio” em categorias equivalentes.
Não são.
Segundo a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio das Nações Unidas, genocídio envolve atos praticados com intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso enquanto grupo.
Esses atos podem incluir assassinato, danos físicos ou mentais graves, imposição deliberada de condições destinadas à destruição física, prevenção de nascimentos ou transferência forçada de crianças.
A intenção específica é central.
Isso significa que um episódio pode envolver milhares ou até milhões de mortes e ainda assim exigir outra classificação jurídica ou histórica se não houver evidência dessa intenção de destruir um dos grupos protegidos pela Convenção.
Da mesma forma, dizer que algo não se enquadra juridicamente como genocídio não significa dizer que foi aceitável.
Pode haver:
- repressão política;
- crimes contra a humanidade;
- execuções;
- deslocamentos forçados;
- perseguição;
- fome agravada por decisões políticas;
- outros tipos de violência de Estado.
Portanto, usar a expressão genérica “o comunismo é genocida” não é uma análise histórica.
Para avaliar se determinado episódio constitui genocídio, é preciso estudar aquele episódio, os grupos atingidos, as políticas envolvidas, os documentos existentes e a intenção dos agentes responsáveis.
9. O comunismo causa fome
Mentira. A existência de episódios de fome em países socialistas não prova que o socialismo ou o comunismo produzam fome inevitavelmente.
Novamente, é preciso tomar cuidado para não inverter a simplificação.
Houve episódios de fome em países governados por partidos comunistas, mas concluir daí que existe uma relação automática entre socialismo, comunismo e fome é historiograficamente insuficiente.
Períodos de fomes são fenômenos complexos. Podem envolver:
- produção agrícola;
- guerras;
- destruição de infraestrutura;
- clima;
- distribuição de alimentos;
- políticas de industrialização;
- decisões governamentais;
- deslocamentos populacionais;
- capacidade tecnológica;
- comércio exterior;
- bloqueios e sanções;
- condições econômicas herdadas.
É por isso que simplesmente registrar uma morte por fome ocorrida dentro de um país socialista não responde, por si só, à pergunta sobre sua causa.
Além disso, o mesmo critério precisa valer para qualquer sistema econômico.
Houve fome sob impérios coloniais, monarquias, governos liberais e sociedades capitalistas.
A causalidade precisa ser demonstrada.
No caso das experiências socialistas, isso significa avaliar individualmente cada episódio, inclusive identificando decisões políticas que possam ter agravado ou provocado crises.
Conclusão
Estudar o comunismo não exige transformá-lo em uma sociedade perfeita que nunca cometeu erros.
Também não exige aceitar como fato qualquer afirmação construída durante mais de um século de anticomunismo.
Essas duas posturas têm algo em comum: ambas dispensam o trabalho de investigar.
É perfeitamente possível reconhecer repressão política em governos socialistas e questionar a metodologia dos “100 milhões de mortos”.
É possível estudar episódios de fome na China ou na União Soviética sem concluir que toda sociedade socialista inevitavelmente produz fome.
É possível reconhecer o caráter materialista do marxismo e, ao mesmo tempo, entender que uma pessoa religiosa pode se organizar politicamente como comunista.
Também é possível discordar dos governos petistas sem inventar que o capitalismo deixou de existir no Brasil.
É essa separação entre conceito, evidência e propaganda que permite discutir as mentiras sobre comunismo sem esconder a história verdadeira.
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Perguntas frequentes: mentiras sobre o comunismo
Marx acreditava que o comunismo era inevitável?
A resposta exige contexto. Há passagens de Marx e Engels que usam linguagem de inevitabilidade histórica, inclusive no Manifesto Comunista. Isso, porém, não significa que a história aconteça automaticamente, sem ação política, organização social ou condições concretas. A leitura determinista de que o capitalismo simplesmente “vira comunismo sozinho” empobrece o materialismo histórico.
Comunismo e socialismo são a mesma coisa?
Não. Na tradição marxista consolidada posteriormente, socialismo costuma designar o período de transformação entre capitalismo e uma sociedade comunista plenamente desenvolvida.
Comunista pode ter iPhone?
Sim. Possuir um bem pessoal não é a mesma coisa que possuir meios de produção utilizados para explorar trabalho assalariado. A discussão comunista sobre propriedade está relacionada principalmente ao controle das estruturas produtivas.
Comunista pode ser cristão?
Pode. O marxismo possui uma base filosófica materialista, mas isso não significa que uma pessoa precise abandonar sua fé pessoal para participar de movimentos comunistas. Historicamente, inclusive, houve aproximações entre cristianismo e movimentos de esquerda.
O PT é comunista?
Não. O PT não é um partido comunista. Seu Estatuto afirma como objetivo a construção do “socialismo democrático”, mas sua trajetória política e seus governos não promoveram uma ruptura com o capitalismo nem aboliram a propriedade privada dos meios de produção para ser considerado comunista.
O comunismo matou 100 milhões?
Não existe consenso historiográfico que permita apresentar 100 milhões como uma cifra exata e indiscutível. O número foi popularizado especialmente por O Livro Negro do Comunismo, cuja metodologia e o total de mortes foram criticados inclusive por alguns dos próprios autores da obra.
Já existiu um país comunista?
Existiram Estados socialistas governados por partidos comunistas, como União Soviética, China, Cuba e Vietnã. Isso é diferente de dizer que esses países alcançaram a sociedade comunista sem classes descrita como horizonte pela tradição marxista.
Comunismo quer acabar com a família?
Não. Inclusive, os comunistas defendem que todas as formas de família devem ser respeitadas, não só a chamada “família tradicional” formada por homem e mulher.
Fontes e referências
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm
https://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/
https://www.marxists.org/portugues/marx/1875/gotha/index.htm
https://pt.org.br/wp-content/uploads/2016/03/estatuto-pt.pdf
https://www.tse.jus.br/partidos/partidos-registrados-no-tse/partido-dos-trabalhadores
https://www.archives.gov/publications/prologue/2015/fall/ike-mccarthy
https://academic.oup.com/illinois-scholarship-online/book/23559/chapter-abstract/184715982



