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Fotografia em primeiro plano de um homem branco de pele clara, com cabelos loiros e olhos azuis, aplicando maquiagem preta opaca no próprio rosto com um pincel cosmético, representando o blackface. Cerca de metade do seu rosto está coberta pelo pigmento preto rough, enquanto a outra metade mostra sua pele natural. Ele olha para o lado com uma expressão séria e focada. O fundo é um cenário de estúdio cinza escuro neutro.

Blackface e a anatomia da desumanização: por que não é só “uma maquiagem”

Recentemente, a cena política brasileira foi palco de mais um episódio abjeto. Uma deputada estadual de São Paulo usou o plenário para realizar a prática do blackface

Ao pintar o rosto e o corpo, a parlamentar alegou que, se uma mulher trans, referindo-se à deputada Erika Hilton, pode presidir uma comissão de mulheres, ela poderia “sentir-se negra” para presidir uma comissão antirracista.

Embora o choque ético e moral seja a primeira reação, precisamos dar um passo atrás para entender que essa ação não é um delírio isolado. Ela faz parte de uma estratégia de “holofotação” — termo cunhado pela Senhorita Bira — para gerar visibilidade em nichos conservadores.

Essas figuras, que atuam como ideólogas da classe dominante, buscam a menção nas redes sociais a qualquer custo, usando o absurdo como escada para cargos eletivos e votos. 

É a mesma tática de parlamentares como Nikolas Ferreira, que vivem de desumanizar o outro para se tornar um fenômeno digital.

Mas, acima de tudo, a atitude da deputada repousa sobre uma visão de mundo profundamente racista, eugenista e cientificista do século XIX.

Para entender por que o blackface é uma ferramenta de segregação e não uma “escolha individual”, precisamos analisar como a burguesia construiu a ideia de raça para legitimar o capital.

E neste artigo, é sobre isso que vamos tratar. Se preferir, você pode assistir à análise completa no meu canal, Gustavo Gaiofato, clicando no play aqui em cima.

O corpo anatômico não produz o corpo social

O erro fundamental da lógica conservadora — e o ponto de partida da nossa análise materialista — é acreditar que a anatomia de um corpo determina seu lugar social de forma automática e natural. Um corpo anatômico não produz um corpo social.

As noções que temos hoje sobre o que é ser “branco”, “preto”, “homem” ou “mulher” não são dados da natureza

Se olharmos para a biologia pura, encontramos variações anatômicas, mas a valoração dessas diferenças é um produto histórico. 

A forma como um corpo é lido, reconhecido e socializado é resultado de relações humanas, conflitos e, principalmente, de um projeto de poder.

As definições modernas de gênero e raça foram consolidadas no século XIX, época em que o capitalismo industrial se tornava o sistema dominante e a burguesia precisava de uma ideologia que garantisse sua permanência no topo.

Foi nesse cenário que nasceu o chamado racismo científico.

O século XIX e a invenção das raças superiores

Até a consolidação da burguesia no poder, a categoria “negro”, “asiático” ou “indígena” como um bloco único e inferiorizado não existia da forma que conhecemos. 

Esses termos foram forjados pelo discurso dominante para inibir as diferenças culturais, históricas e sociais de milhares de povos, reduzindo-os a uma massa única a ser dominada.

O Darwinismo Social e a “medida” do humano

Com a ascensão do capitalismo, surgiu a necessidade de medir e categorizar a humanidade. Usando de forma distorcida a teoria da evolução de Charles Darwin, intelectuais burgueses criaram o Darwinismo Social.

Relatórios “científicos” da época buscavam no tamanho do crânio, na proporção dos braços ou no formato do rosto a prova de que existiam raças mais aptas à civilização e outras naturalmente inferiores. 

O referencial, é claro, era sempre o homem branco europeu. Ele era o “universal”, o padrão de normalidade a partir do qual todos os outros que se afastassem dessa anatomia seriam medidos como desvios ou atrasos evolutivos.

Essa pseudociência serviu como o “fardo do homem branco”: a ideia de que nações como Inglaterra, França e Bélgica tinham o dever moral de levar a “civilização” aos povos “menos aptos”. 

Na realidade, esse discurso era a cortina de fumaça para o saque de recursos naturais. Enquanto se falava em “civilizar”, os belgas pilhavam o marfim no Congo e os franceses mineravam o ouro na África Ocidental, além de promoverem o genocídio de populações inteiras.

O apagamento como ferramenta de dominação

Ao rotular todos os povos de um continente como “pessoas pretas”, os europeus apagavam milênios de diferenças históricas e sociais. 

Esse “apagamento” era funcional. Se o outro não tem uma civilização própria (na ótica européia), ele pode ser invadido e possuído. A produção desse “Outro” inferiorizado é o que permitiu as maiores atrocidades da história moderna.

O que é o Blackface: entretenimento como arma de segregação

Litografia colorida de um pôster vintage de um "minstrel show". No topo, o texto diz: "WM. H. WEST'S BIG MINSTREL JUBILEE". À esquerda, um pequeno retrato fotográfico oval de William H. West. A imagem principal é composta por dois grandes círculos de ouro entrelaçados. Dentro do círculo esquerdo, há um retrato realista de William West, um jovem branco bem vestido com terno branco e gravata borboleta rosa. Dentro do círculo direito, há um retrato de West em blackface grotesco, com o rosto pintado de preto, lábios exagerados pintados de vermelho brilhante, peruca desgrenhada, vestindo um smoking com gravata borboleta branca.
Pôster vintage do “William H. West’s Big Minstrel Jubilee”. Note o contraste explícito e pedagógico que o pôster faz entre o “criador” branco (à esquerda) e a sua caricatura desumanizada de uma pessoa negra (à direita). Imagens como esta eram vendidas como puro entretenimento, normalizando a inferioridade racial na superestrutura cultural do século XIX. Fonte: National Museum of African American History & Culture.

É nesse caldo cultural de desumanização que surge o Blackface. A prática não nasceu como uma piada inocente, mas como uma indústria de entretenimento de massa no final do século XIX, especialmente nos Estados Unidos, através dos Minstrel Shows (Espetáculos de Menestréis).

O blackface consistia em atores brancos pintando seus rostos com cortiça queimada ou tinta preta, exagerando os lábios com cores claras e interpretando personagens negros de forma caricata, preguiçosa, infantilizada ou hipersexualizada.

O personagem Jim Crow

Gravura histórica colorida à mão de Thomas D. "T.D." Rice no palco, interpretando o personagem "Jim Crow". Ele está em blackface (rosto pintado de preto, dentes brancos expostos) e veste roupas extremamente esfarrapadas e gastas: uma jaqueta azul sobre um colete marrom, calças amarelas rasgadas e meias listradas. Ele está em uma pose de dança exagerada, twisted e dinâmica, com uma mão levantada. O fundo é um esboço simples de choupanas rurais. O texto abaixo diz: "MR. T. RICE AS THE ORIGINAL JIM CROW"
T.D. Rice como “O Original Jim Crow”. Esta gravura documenta a performance que solidificou a caricatura de blackface: o negro visto como uma peça de deboche, “naturalmente” bobo e feliz na sua própria miséria (representada pelas roupas rasgadas). Este “boneco” de entretenimento foi tão funcional para a dominação branca que seu nome foi escolhido para batizar o sistema legal de segregação que estruraria o racismo nos EUA por décadas. Fonte: National Museum of African American History & Culture.

Um dos personagens mais famosos dessa época foi Jim Crow, uma caricatura que reduzia o negro a um objeto de piada e deboche para o público branco. 

A importância desse personagem é tão grande que seu nome batizou as Jim Crow Laws (Leis Jim Crow), o conjunto de leis que oficializou a segregação racial nos EUA.

O blackface cumpria uma função social clara:

  • Desumanizar: ao transformar o negro em uma caricatura, retirava-se dele sua individualidade e humanidade.
  • Naturalizar a inferioridade: se o negro era “naturalmente” engraçado, bobo ou violento no palco, ele não precisava ter os mesmos direitos civis do homem branco na vida real.
  • Consolidar a branquitude: o espetáculo servia para que o público branco se sentisse coeso e superior, reforçando a ideia de que o “outro” era uma categoria inferior de humanidade.

Essa prática ajudou a moldar o imaginário do cinema moderno. O filme “O Nascimento de uma Nação” (1915), de D.W. Griffith, é um exemplo seminal: usou o blackface para retratar negros como selvagens e violentos, o que impulsionou o ressurgimento da Ku Klux Klan.

O mito da “invenção pós-moderna” do gênero

A deputada em seu pronunciamento tentou atacar a identidade de mulheres trans usando a mesma lógica anatômica: “se ela pode ser mulher sem ter nascido com o corpo X, eu posso ser negra sem ter nascido com a pele Y”.

Novamente, ignora-se a história. A direita tenta vender a ideia de que a diversidade de gênero é uma “invenção da cultura woke” ou da pós-modernidade. 

No entanto, estudos históricos mostram que diversas civilizações, muito antes do binarismo rígido do século XIX, reconheciam sujeitos que escapavam às categorias de homem e mulher:

  • Mesopotâmia antiga: cultos a Inanna e Ishtar contavam com figuras que rompiam com a normatividade masculina.
  • Mundo greco-romano: os Galli, sacerdotes do culto de Cibele, ocupavam uma posição social que não se encaixava na divisão binária convencional.
  • Índia: as Hijras são reconhecidas há milênios como uma categoria social e ritual própria que não cabe no esquema ocidental de sexo e gênero.

A diferença fundamental que a deputada ignora é que a transição de gênero é uma busca por reconhecimento dentro de um corpo social que historicamente reconheceu essas ambiguidades, enquanto o blackface é uma ferramenta de agressão desenhada especificamente para ridicularizar e excluir.

Pintar a pele não altera o lugar social. A deputada pode se pintar o quanto quiser, mas ela nunca será lida pela sociedade através da lente da violência, exclusão e segregação que uma pessoa preta enfrenta no Brasil.

O legado do racismo científico no Brasil

O Brasil não passou imune a essa onda eugenista. Pelo contrário, nossa sociologia e medicina do início do século XX foram profundamente influenciadas por figuras que abraçaram o racismo científico, como:

  • Nina Rodrigues: que defendia códigos penais diferentes para raças diferentes.
  • Oliveira Viana: teórico do “branqueamento” da população.
  • Monteiro Lobato: cuja correspondência revela um apoio explícito a ideias eugenistas e à Ku Klux Klan.

Quando uma parlamentar brasileira faz blackface hoje, ela está evocando toda essa linhagem de pensamento que vê o negro não como um sujeito de direitos, mas como um objeto de experimentação, deboche ou controle.

Conclusão

A ação da deputada não é apenas uma “gafe” ou uma falta de ética pessoal. É a atualização de um discurso eugenista que busca criar categorias de humanidade. 

Ao dizer que Erika Hilton está em uma “outra categoria”, a direita conservadora retira o direito à universalidade de certos sujeitos.

Se uma pessoa é colocada em uma “outra categoria de humanidade”, ela não tem direito ao mesmo banheiro, à mesma escola ou à mesma vida. 

É a lógica que fundamenta desde as leis Jim Crow até o genocídio em Gaza ou a violência policial nas periferias brasileiras.

O blackface é a face “divertida” de um projeto que termina em extermínio

É por isso que entender os Panteras Negras — que estudaremos em outro artigo — é fundamental: eles compreenderam que, diante de um sistema que te desumaniza e te segrega por lei e por cultura, a resposta não pode ser apenas moral. Ela precisa ser política, organizada e baseada na autodefesa da classe e da raça.

A indignação moral com casos como o que vimos é justa e necessária, mas ela deve ser o motor para uma crítica sólida. 

Não se trata de apenas ficar “bravo”, mas de entender que o inimigo usa a história e a biologia de forma desonesta para manter seus privilégios. Desmascarar e combater o blackface é, acima de tudo, desmascarar a ideologia da classe dominante.

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O próximo passo, após entender o blackface, é ler este outro conteúdo que mostra a resistência da população negra nos EUA: A história dos Panteras Negras: origem, líderes e legado.

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