“Che Guevara matava homossexuais.” A frase aparece com frequência em discussões na internet, sobretudo quando alguém associa a imagem do revolucionário argentino à esquerda ou à defesa dos direitos LGBTQIAP+.
Ela é curta, chocante e parece encerrar o debate antes mesmo que ele comece.
O problema é que essa frase mistura acontecimentos diferentes da história cubana e transforma uma trajetória cheia de contradições em uma acusação muito específica: a de que Che Guevara teria mandado executar pessoas por serem homossexuais.
Cuba, de fato, adotou políticas de perseguição aos homossexuais nas primeiras décadas após a Revolução Cubana. O próprio Estado cubano reconhece hoje essa discriminação.
Também é verdade que Che esteve à frente da fortaleza de Lá Cabaña, onde ocorreram julgamentos e fuzilamentos, e que apoiou um centro disciplinar de trabalho em Guanahacabibes.
Mas dessas afirmações não decorre que “Che Guevara matava gays”. As documentações disponíveis até hoje não apresentam evidência sólida de pessoas executadas sob suas ordens por causa da orientação sexual.
Para entender de onde vem essa narrativa, é preciso separar Lá Cabaña, Guanahacabibes e as UMAP, experiências distintas, de períodos e funções diferentes.
A Revolução Cubana e o contexto histórico da homofobia em Cuba
Uma revolução pode mudar instituições políticas e relações de poder em pouco tempo. Não consegue, porém, apagar em uma madrugada todos os preconceitos construídos durante séculos.
A Cuba que chegou a 1959, ano da vitória da Revolução Cubana, era uma sociedade marcada pelo machismo, patriarcado e pela homofobia, assim como grande parte do mundo naquele período.
Esses valores não desapareceram com a queda de Fulgêncio Batista. Continuaram presentes na população e entre pessoas que participaram da construção do novo Estado.
Reconhecer isso não significa naturalizar a perseguição. Contextualizar uma violência é diferente de justificá-la.
O próprio debate público cubano contemporâneo reconhece esse passado.
As Unidades Militares de Apoio à Produção, as UMAP, funcionaram entre 1965 e 1968 e receberam, entre outros grupos, homens homossexuais e religiosos considerados inadequados para unidades militares regulares.
Também existia a concepção de que trabalho e disciplina poderiam “reeducar” essas pessoas, baseada nos preconceitos e no conhecimento sobre sexualidade daquele período.
Em 2010, Fidel Castro foi ainda mais direto.
Em entrevista reproduzida pelo Granma, jornal oficial do Partido Comunista de Cuba, chamou o que ocorreu com os homossexuais de “uma grande injustiça” e assumiu responsabilidade política por não ter impedido a perseguição.
Ou seja, não é necessário negar a homofobia que existiu em Cuba para questionar uma afirmação historicamente frágil sobre Che Guevara.
Também não é necessário transformá-lo em militante LGBTQIAP+ fora de seu tempo.
Em seus escritos de juventude há linguagem depreciativa sobre um homem que ele supunha ser homossexual. Isso mostra que Che também reproduzia preconceitos existentes naquele contexto.
Uma coisa, entretanto, é identificar preconceito em suas palavras. Outra coisa é afirmar que Che Guevara matava homossexuais e que existiu uma política de execução de homossexuais comandada por ele.
Che Guevara matava homossexuais? O que os documentos indicam
Sobre se Che Guevara matava homossexuais, a confusão começa, em geral, com três palavras: Lá Cabaña, Guanahacabibes e UMAP. Entenda cada uma delas a seguir.
Lá Cabaña teve fuzilamentos, mas não era uma prisão para homossexuais
Che Guevara assumiu o comando do Departamento Militar da fortaleza de Lá Cabaña em janeiro de 1959. O próprio Granma registra sua presença na instalação e informa que ele continuou responsável pela fortaleza naquele ano.
Também é fato que ocorreram fuzilamentos. Outro material do Granma, sobre a chamada Operación Verdad, afirma que Che era presidente do Tribunal de Apelações que revisava decisões dos tribunais revolucionários.
O texto menciona julgamentos e penas de fuzilamento, apresentando os condenados como integrantes do aparato repressivo da ditadura de Batista acusados de crimes de guerra.
É legítimo discutir a qualidade desses julgamentos, o devido processo, a pena de morte ou a responsabilidade política de Che.
O salto sem comprovação acontece quando essas execuções passam a ser apresentadas como fuzilamentos de homossexuais por serem homossexuais.
Nas fontes oficiais de Cuba e em documentações históricas, não aparece nada que identifique a orientação sexual como fundamento dessas condenações.
“Che participou de um sistema que executou condenados” e “Che executava gays porque eram gays” são afirmações diferentes. A segunda precisa de provas próprias.
Guanahacabibes existiu, mas não foi criado como prisão para gays
Outra peça frequente nessa narrativa é Guanahacabibes, ou Centro de Reabilitação de Uvero Quemado.
A EcuRed, enciclopédia colaborativa cubana, descreve o local como um campo disciplinar criado em 1960 pelo Ministério das Forças Armadas.
A partir de 1962, passou a ser usado por outros órgãos, entre eles o Ministério das Indústrias dirigido por Che, que se tornou um dos principais impulsionadores do projeto.
Os enviados para lá eram militares ou funcionários acusados de faltas graves contra a chamada “moral revolucionária” ou de indisciplinas que não configuravam crime.
No Ministério das Indústrias, as sanções podiam durar de um mês a um ano e envolviam trabalho no centro.
É possível questionar esse sistema disciplinar. Mas a mesma fonte não descreve Guanahacabibes como uma instituição criada especificamente para encarcerar homossexuais ou “curá-los”.
Guanahacabibes tinha trabalho disciplinar.
Anos depois, as UMAP também usaram trabalho e receberam homossexuais.
Portanto, a narrativa é de que Che teria criado os “campos para gays”.
A semelhança pode sustentar uma discussão sobre antecedentes institucionais. Não prova que fossem a mesma instituição nem que tivessem o mesmo público.
As UMAP perseguiram homossexuais, mas Che não as comandou
As UMAP são o capítulo onde a perseguição a homossexuais em Cuba está documentada com mais clareza.
Essas unidades funcionaram entre 1965 e 1968. Homens homossexuais foram enviados para elas, assim como religiosos e outros convocados considerados inadequados ao serviço militar regular.
Há testemunhos sobre discriminação, trabalho compulsório e experiências traumáticas. Negar isso seria apagar as vítimas.
Mas é preciso olhar o calendário.
Em abril de 1965, Che deixou Cuba e participou da missão guerrilheira no Congo até novembro daquele ano, como registra o próprio Granma. Depois seguiria para a Bolívia, onde morreu em 1967.
Portanto, dizer que Che “comandava as UMAP” não corresponde à cronologia.
Pode-se debater se práticas anteriores ajudaram a formar um ambiente institucional que tornou aquelas unidades possíveis.
Novamente, isso é diferente de atribuir a ele sua direção ou inventar execuções de homossexuais para as quais não aparecem evidências.
A formulação historicamente defensável é menos chamativa, mas muito mais precisa:
- a Revolução Cubana praticou discriminação e repressão contra homossexuais;
- Che participou de outras estruturas repressivas e reproduziu preconceitos de seu tempo;
- porém, não há base documental sólida para afirmar que Che mandava matar pessoas por sua orientação sexual.
Como o capitalismo tratava as pessoas LGBTQIAP+ na mesma época?
Apontar a homofobia cubana como parte de um contexto mundial serve para evitar outro erro: apresentar aquela repressão como uma anomalia exclusiva do socialismo, enquanto países capitalistas aparecem retrospectivamente como territórios de liberdade sexual.
O caso de Alan Turing é um dos exemplos mais conhecidos. Após desempenhar papel decisivo na criptoanálise britânica durante a Segunda Guerra Mundial, o matemático foi processado em 1952 por manter uma relação consensual com outro homem.
Segundo o próprio serviço de inteligência britânico GCHQ, Turing teve de escolher entre prisão e liberdade condicional vinculada a um tratamento hormonal destinado a reduzir sua libido.
Escolheu o tratamento e morreu por suicídio em 1954. O perdão real veio apenas em 2013.
Décadas depois, a epidemia do vírus HIV mostrou como o preconceito e a saúde pública podiam se combinar.
Antes de o nome “AIDS” se consolidar, a doença chegou a ser chamada de GRID, sigla em inglês para “imunodeficiência relacionada a gays”, além de circular como “praga gay” e “câncer gay”.
A associação ajudou a transformar uma emergência sanitária em instrumento de estigmatização.
A medicina também demorou a abandonar categorias patologizantes.
A Organização Mundial da Saúde deixou de classificar a homossexualidade como transtorno apenas em 17 de maio de 1990.
No caso das identidades trans, vale corrigir um ponto que costuma aparecer de forma imprecisa: a principal mudança não ocorreu em 2016.
A CID-11, adotada pela OMS em 2019 e em vigor desde 2022, retirou a incongruência de gênero do capítulo dos transtornos mentais e a deslocou para condições relacionadas à saúde sexual.
O Brasil também tem sua própria história.
A Operação Tarântula não ocorreu nos anos 1970 nem durante a ditadura militar. Começou em São Paulo em fevereiro de 1987, já no período de redemocratização, sendo organizada pela Polícia Civil paulista.
A Comissão da Verdade da Prefeitura de São Paulo registra que a operação pretendia processar travestis e homossexuais por acusações relacionadas ao “ultraje ao pudor” e ao suposto contágio da “AIDS” e que acabou suspensa após questionamentos sobre sua ilegalidade e sobre a violência empregada.
Estudos estimam que mais de 300 travestis tenham sido presas em poucos dias.
Entenda que essas informações não reduzem a gravidade das UMAP. Apenas desmonta a ideia de que a perseguição às dissidências sexuais fosse uma exclusividade socialista. Na verdade, ela atravessou diversos sistemas políticos diferentes.
Inclusive, foi na União Soviética que se mudou, pela primeira vez na história da humanidade, a compreensão de homossexualidade e transexualidade como um fenômeno social e não como uma “aberração”.
O novo Código das Famílias de Cuba e a mudança desde os anos 1970
Se a história terminasse nas UMAP, seria fácil descrever Cuba como uma fotografia congelada dos anos 1960. Mas as sociedades mudam, e importa saber se conseguem reconhecer erros e transformar instituições.
A Constituição cubana de 2019 proíbe discriminação por sexo, gênero, orientação sexual e identidade de gênero.
Em 2022, o país aprovou um novo Código das Famílias. A norma definiu o casamento como a união entre duas pessoas, sem restringi-lo a homem e mulher, e preservou o acesso igualitário a instituições como adoção, uniões afetivas e técnicas de reprodução assistida.
O Código também substituiu a lógica tradicional de “pátrio poder” pela responsabilidade parental, reconheceu diferentes configurações familiares e incorporou princípios como autonomia progressiva de crianças e adolescentes, cuidado, afetividade e proteção contra a violência.
O texto passou por consulta popular e foi submetido a referendo em 25 de setembro de 2022. Segundo os resultados validados pelo Conselho Eleitoral Nacional, 66,85% dos votos válidos foram favoráveis à aprovação.
Isso não significa que a homofobia tenha desaparecido de Cuba. Nenhuma lei elimina sozinha preconceitos sociais e estruturais.
Significa que o Estado que décadas antes participou dessa discriminação passou a reconhecer juridicamente direitos que antes negava, como vários outros países negavam e negam até hoje.
Por que a direita usa o argumento de que “Che Guevara matava homossexuais”?
A frase “Che Guevara matava homossexuais” funciona porque reúne uma figura internacionalmente reconhecida, uma acusação moralmente repulsiva e uma história cubana que realmente contém episódios de perseguição a homossexuais.
Não é preciso inventar tudo. Basta embaralhar as partes, como a direita sempre faz.
Lá Cabaña teve fuzilamentos. Guanahacabibes teve trabalho disciplinar. As UMAP receberam homossexuais. Che esteve ligado aos dois primeiros acontecimentos, mas não comandou o terceiro.
Quando datas, funções e instituições desaparecem, nasce uma narrativa muito mais simples: “Che criou campos para gays e os fuzilava”.
Criticar a repressão cubana pode até ser legítimo. O problema começa quando os direitos LGBTQIAP+ são usados apenas como arma circunstancial: muito rigor para cobrar Cuba nos anos 1960 e pouco interesse em discutir políticas que protejam essa mesma população no presente.
Quem realmente se preocupa com a dignidade das pessoas LGBTQIAP+ precisa olhar também para:
- acesso a trabalho;
- saúde;
- moradia;
- proteção contra violência; e
- políticas públicas, especialmente para travestis e pessoas trans historicamente empurradas para situações de extrema vulnerabilidade.
Mas isso é o que a direita não faz. Essas figuras nunca defendem os plenos direitos dessa comunidade.
Até que apareça documentação capaz de demonstrar o contrário, a afirmação de que “Che Guevara matava homossexuais” não é sustentada pelas evidências disponíveis.
Enfrentar o passado exige reconhecer violências, contradições, mudanças e responsabilidades.
Um espantalho precisa apenas de uma frase que caiba em um post.
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Perguntas frequentes sobre Che Guevara, Cuba e a perseguição aos homossexuais
Che Guevara matava homossexuais?
Não há base documental para afirmar que Che Guevara matava homossexuais por causa de sua orientação sexual. Che participou de estruturas repressivas da Revolução Cubana e esteve ligado a tribunais que aplicaram penas de morte, mas as fontes históricas não apontam a homossexualidade como motivo dessas execuções.
Che Guevara criou campos de concentração para gays?
Não há evidências de que Che Guevara tenha criado campos de concentração especificamente destinados a prender ou “curar” homossexuais. Essa afirmação costuma confundir Guanahacabibes, centro disciplinar ligado ao Ministério das Indústrias dirigido por Che, com as UMAP, criadas posteriormente e para as quais homossexuais foram enviados.
O que eram as UMAP em Cuba?
As Unidades Militares de Apoio à Produção (UMAP) funcionaram em Cuba entre 1965 e 1968. Homens homossexuais, religiosos e outros grupos considerados inadequados ao serviço militar regular foram enviados para essas unidades, onde existiam práticas de trabalho compulsório, disciplina e uma concepção de “reeducação”.
Che Guevara comandou as UMAP?
Não. Che Guevara deixou Cuba em abril de 1965 para participar da missão guerrilheira no Congo e posteriormente seguiu para a Bolívia onde foi morto em 1967. Por isso, a cronologia não sustenta a afirmação de que ele tenha comandado as UMAP, que funcionaram entre 1965 e 1968.
Guanahacabibes era uma prisão para homossexuais?
Não, Guanahacabibes não foi uma prisão criada especificamente para homossexuais. O local funcionava como centro disciplinar para militares e funcionários acusados de indisciplina ou de faltas contra a chamada “moral revolucionária”, envolvendo também trabalho como parte das sanções.
Houve perseguição a homossexuais depois da Revolução Cubana?
Sim. O Estado cubano adotou políticas discriminatórias contra homossexuais nas primeiras décadas posteriores à Revolução. No entanto, vários países capitalistas também discriminavam homossexuais à época, sendo que até hoje os direitos da comunidade LGBTQIAP+ não são respeitados em diferentes países. Anos depois, o próprio governo cubano passou a reconhecer essa perseguição como uma injustiça e a revisar suas políticas sobre sexualidade.
Fidel Castro reconheceu a perseguição aos homossexuais em Cuba?
Sim. Em 2010, Fidel Castro classificou o tratamento dado aos homossexuais nas primeiras décadas da Revolução como “uma grande injustiça” e assumiu responsabilidade política por não ter impedido aquela perseguição.
Cuba permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo?
Sim. O novo Código das Famílias de Cuba, aprovado em referendo em 2022, passou a definir o casamento como a união entre duas pessoas, sem restringi-lo a homem e mulher. A legislação também ampliou o reconhecimento de diferentes configurações familiares e garantiu direitos relacionados à adoção e à parentalidade.
Referências:
https://www.youtube.com/watch?v=2cFscxhhwxE
https://www.granma.cu/bibliofagias/2025-05-06/la-escritura-como-adarga-06-05-2025-21-05-44
https://www.cubainformacion.tv/cuba/20221129/100361/100361-hablar-de-las-umap-desde-la-cuba-de-hoy
https://www.granma.cu/mundo/2014-03-11/de-brazzaville-a-la-paz-definitiva
https://www.granma.cu/cuba/2019-02-18/que-fue-la-operacion-verdad-18-02-2019-13-02-45
https://www.granma.cu/cuba/2017-05-04/los-dias-del-che-en-la-cabana-04-05-2017-20-05-27
https://www.ecured.cu/Centro_de_Rehabilitaci%C3%B3n_de_Uvero_Quemado
https://www.gchq.gov.uk/information/alan-turing
https://www.gov.uk/government/news/royal-pardon-for-ww2-code-breaker-dr-alan-turing
https://iris.who.int/bitstream/handle/10665/173422/WHA43_1990-REC-1_eng.pdf



