A humanidade é capaz de coisas incríveis quando aplica a ciência e a tecnologia para resolver problemas concretos da vida.
O avanço da medicina, da biotecnologia e da farmacologia permitiu sintetizar moléculas complexas para tratar condições de saúde graves, como a obesidade, que, agora, tem pela primeira vez uma perspectiva real de controle a longo prazo com as chamadas canetas emagrecedoras, nome popular para drogas como Mounjaro e Wegovy.
Nos ensaios clínicos, o Mounjaro mostrou que pode reduzir até 26% do peso corporal.
É uma tecnologia revolucionária, mas que entra no ponto central desta análise: em que tipo de sociedade essa tecnologia está sendo produzida e distribuída?
Sob o sistema capitalista, a ciência não é desenvolvida para atender às reais necessidades da população. Ela não nasce com o objetivo primário de libertar as pessoas da dor ou de garantir uma vida saudável e plena de forma universal.
Neste artigo, você entenderá como o avanço técnico, por mais brilhante que seja, é imediatamente aprisionado pelo controle de patentes e pelas metas de lucro das grandes corporações, impedindo que o medicamento chegue à população como um direito básico à saúde.
Quanto custa o tratamento com canetas emagrecedoras no Brasil?
Se você acompanhar a discussão sobre Mounjaro e remédios similares para o tratamento da obesidade, a primeira grande contradição que salta aos olhos é o preço. Dependendo da dosagem recomendada, o custo mensal do tratamento pode ficar entre R$ 1.000 e R$ 3.000.
Em um país onde a maioria esmagadora da população vive com um ou dois salários mínimos, esse valor é proibitivo, totalmente inacessível.
Essa barreira financeira aprofunda uma desigualdade histórica, em que apenas um seleto grupo de pessoas consegue acessar e realizar o tratamento para obesidade de forma eficaz.
O elo entre a obesidade e a falta de acesso ao tratamento
A taxa de obesidade e o adoecimento metabólico na população estão diretamente ligados às condições de vida, à precarização do trabalho e à pobreza.
Esses fatores ambientais obrigam a classe trabalhadora com menor poder aquisitivo a se alimentar de comida ultraprocessada e de péssima qualidade nutricional.
É exatamente esse grupo que mais adoece e precisaria de tratamento médico para obesidade, mas é quem jamais terá acesso às canetas emagrecedoras.
O perigo do mercado paralelo
O desespero diante da exclusão gera um efeito colateral devastador. Pessoas sem recursos financeiros passam a recorrer a canetas emagrecedoras clandestinas, contrabandeadas e/ou falsificadas.
Injetar substâncias desconhecidas no corpo sob a promessa de um milagre é o retrato de como a falta de acesso empurra o trabalhador para o risco de morte.
Enquanto uma minoria consome as canetas emagrecedoras muitas vezes por razões somente estéticas, a maioria da população amarga o adoecimento sem qualquer respaldo do Estado.
Como a indústria lucra com a obesidade e as canetas emagrecedoras?
Para entender o fenômeno das canetas emagrecedoras e como a indústria lucra com a obesidade e seu tratamento, é preciso analisar toda a cadeia produtiva e as escolhas políticas que moldam a alimentação e o estilo de vida da população.
Nos últimos 30 a 40 anos, o Brasil e diversos países periféricos viram uma transformação na agricultura e no abastecimento.
As áreas dedicadas ao plantio de comida de verdade, como arroz, feijão, mandioca, frutas e legumes, foram bastante reduzidas. Em seu lugar, avançaram os campos de monocultura, como a soja, voltados para a exportação.
Ao mesmo tempo, vimos o desmonte recorrente das políticas públicas de abastecimento popular.
O resultado dessa cascata de acontecimentos é a alimentação saudável ficando cada vez mais cara e inacessível, enquanto os alimentos ultraprocessados e hipercalóricos tomam conta dos supermercados.
É uma articulação de negócios perfeita. De um lado, você consome a comida que destrói sua saúde metabólica. Do outro, consome uma medicação vendida pela indústria para tentar frear as consequências desse modo de vida que causou o adoecimento.
Por que o tratamento da obesidade não é prioridade na saúde pública?
A mercantilização e exclusividade no tratamento da obesidade evidenciam um problema ainda mais profundo, que é a precarização proposital da saúde pública.
A falência estrutural do sistema, marcada por filas de atendimento e falta de acesso, não é um acidente, mas um projeto político de exclusão.
Cria-se o conveniente discurso de que não há orçamento para absorver tratamentos inovadores no SUS, mas, paradoxalmente, não falta dinheiro estatal para perdoar dívidas bilionárias de grandes operadoras de planos de saúde privados.
O Estado, que deveria garantir o cuidado coletivo, transfere a culpa da epidemia de obesidade para o indivíduo, adotando a cruel política do “cada um que emagreça por conta própria” e deixando de transformar estruturalmente a saúde pública.
A obesidade é um problema de escolha pessoal?
A propaganda vendida pelas redes e pela indústria cultural é a de que emagrecer depende apenas de uma escolha pessoal ou de uma solução mágica, enquanto, na verdade, a obesidade é uma doença multifatorial que não depende exclusivamente de escolhas.
Nesse sentido, as canetas emagrecedoras passaram a ser tratadas como um atalho para o emagrecimento. Você aplica a medicação, inibe o apetite e resolve o problema. Nada de acompanhamento multidisciplinar, reeducação alimentar ou incentivo à prática de exercícios físicos.
O Estado e o mercado lavam as mãos, e não se discute:
- a jornada de trabalho exaustiva que impede o trabalhador de se alimentar de forma saudável;
- o salário que não sobra para fazer a feira do mês inteiro;
- o estresse generalizado;
- a ausência de espaços públicos para atividade física;
- a qualidade do que chega ao prato do trabalhador.
Procura-se uma saída rápida para silenciar o sintoma sem jamais enfrentar as causas da obesidade.
Como consequência, assim que o tratamento com as canetas emagrecedoras é interrompido sem que tenha havido qualquer mudança nas condições materiais de vida, o trabalhador retorna para o mesmo ciclo de ansiedade e ganho de peso.
Quais são os riscos do uso contínuo de canetas emagrecedoras?
Outra questão sobre as canetas emagrecedoras diz respeito ao tempo de uso. Tratando-se de medicamentos recentes, ainda não existem estudos consolidados sobre os impactos de seu uso continuado por 20, 30 ou 40 anos.
Ninguém pode afirmar com total certeza o que acontece com o organismo ao tomar Mounjaro ou Wegovy, por exemplo, ininterruptamente ao longo de toda a vida.
Ainda assim, o discurso corporativo incentiva a permanência no tratamento sob a justificativa de que a obesidade é uma condição crônica, o que gera conveniência financeira para a indústria farmacêutica e um fluxo inesgotável de receita.
É uma das manifestações mais claras daquilo que vimos no livro Realismo Capitalista, de Mark Fisher, no nosso Clube de Leitura: em vez de repensar como a sociedade produz alimento e organiza a vida, o sistema se molda para, neste caso, a medicação ser o intermediário obrigatório da existência humana.
Conclusão
Criticar como as canetas emagrecedoras são comercializadas é entender que o problema central nunca foi o avanço tecnológico ou da ciência, mas sim a arquitetura de um sistema econômico que coloca o lucro acima de qualquer coisa, inclusive da vida humana.
Enquanto drogas como o Mounjaro ou o Wegovy forem tratados como uma mercadoria exclusiva para quem pode pagar milhares de reais por mês, elas servirão apenas como mais um marcador de desigualdade social.
Além disso, essa dinâmica de tratamento da obesidade com as canetas emagrecedoras tem criado situações, no mínimo, questionáveis.
Temos visto cada vez mais comércios e restaurantes se adaptando ao perfil de clientes medicados com Mounjaro, oferecendo porções reduzidas no cardápio ou descontos no preço final da conta.
No entanto, o que poderia parecer uma adaptação inclusiva é, na verdade, a rápida criação de um novo nicho de lucro, em que a falta de fome do cliente é transformada em uma engenhosa ferramenta de marketing.
Superar esse cenário exige ir além do indivíduo. É preciso debater a transformação da saúde pública, o acesso universal à alimentação saudável e a redução das jornadas de trabalho, passos fundamentais para que o conhecimento científico seja um bem comum de toda a sociedade, e não mais uma das mercadorias vendidas no modelo capitalista.
Se este artigo ajudou você a entender os impactos das canetas emagrecedoras para além do tratamento da obesidade, compartilhe em suas redes para alcançarmos cada vez mais pessoas.
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https://www.bbc.com/portuguese/articles/c72e2q52k55o
https://www.youtube.com/watch?v=1-FJxXz2GWk&t=189s
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/obesity-and-overweight



