Se você já se perguntou como os Estados Unidos se tornaram uma potência mundial, ou já questionou como o país acumulou tanto poder ao ponto de ditar as regras do jogo para todas as outras nações, este artigo é para você.
Para compreendermos a história dos Estados Unidos, precisamos analisá-la de fora do senso comum, que costuma vender o país como o “farol da liberdade” e o “modelo de progresso” universal.
Essa narrativa esconde, na verdade, um progresso que se alimenta da indústria bélica, das guerras infinitas, da exploração da classe trabalhadora e da apropriação de cursos vitais da periferia do capital.
Através de uma máquina de propaganda sem precedentes, o império conseguiu normalizar a barbárie, transformando invasões em “ajuda humanitária” e massacres em “defesa da democracia”.
Neste artigo, vamos desmistificar a história dos Estados Unidos contada pela mídia hegemônica, pelos algoritmos das redes sociais e pelos filmes de Hollywood, para entendermos, de fato, como o país chegou onde está e as consequências do seu projeto de poder que está levando o país ao colapso.
A fundação dos EUA e as contradições iniciais
Muitas vezes, a história oficial tenta apagar o que havia antes de 1776 no território estadunidense, como se ele fosse um “deserto” pronto para ser ocupado pela civilização.
Mas a realidade nos mostra um cenário complexo de nações organizadas e um projeto colonial britânico que plantou as raízes da desigualdade e do expansionismo que definem o país até hoje.
Os povos originários dos Estados Unidos
Antes da chegada do primeiro colono europeu, o território que hoje chamamos de Estados Unidos era habitado por centenas de nações indígenas diversas — como os Iroqueses, Cherokees, Sioux e Apaches.
Diferente do mito do “selvagem errante” criado para justificar o extermínio, essas sociedades possuíam organizações políticas complexas, rotas de comércio e sistemas de agricultura sofisticados.
A colonização britânica do território, portanto, não foi uma “descoberta”, mas uma invasão sangrenta de territórios soberanos.
As Treze Colônias e o capitalismo de duas faces
O projeto colonial da Grã-Bretanha na costa leste da América do Norte não foi um plano único e centralizado. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, os britânicos estabeleceram no território treze unidades administrativas distintas — as famosas Treze Colônias — que iam da Geórgia ao Maine.

Desde o início da colonização da América do Norte, o capital britânico aplicou modelos de desenvolvimento que atendiam a diferentes necessidades do mercado europeu, criando uma divisão que moldaria o conflito interno na história dos Estados Unidos no século seguinte:
- O Norte (Nova Inglaterra): formado por colônias de povoamento e refugiados religiosos. O foco era o mercado interno, com pequenas propriedades e uma burguesia comercial nascente que desfrutava de “negligência salutar”, uma autonomia administrativa permitida por Londres.
- O Sul: desenhado estritamente para a exploração em larga escala. Foi onde se consolidou o modelo de plantation (latifúndio exportador), sustentado pelo tráfico transatlântico e pela exploração de pessoas escravizadas para abastecer a Europa com tabaco e algodão.
A Independência dos EUA: uma revolução liberal-conservadora
Enquanto as Treze Colônias prosperavam sob suas próprias lógicas, a Grã-Bretanha mergulhava em conflitos caros na Europa.
Essa prosperidade colonial passou a ser vista como a solução para as dívidas da metrópole, gerando um atrito que levaria à ruptura.
A separação definitiva entre EUA e Grã-Bretanha em 4 de julho de 1776 não nasceu de um “puro amor à liberdade”.
O gatilho foi econômico: após a Guerra dos Sete Anos, conflito contra a França, a Coroa Britânica estava quebrada e decidiu apertar o pacto colonial com as Treze Colônias, impondo taxas sobre o selo, o açúcar e o chá.
O famoso grito de “Sem representação, não há taxação” não era um pedido de democracia para o povo, mas o clamor de uma burguesia colonial que queria liberdade para lucrar sem prestar contas a Londres.
Ao contrário do que dizem os manuais liberais, os chamados Founding Fathers (Pais Fundadores) eram grandes proprietários e escravistas.
O modelo que desenharam inspirava-se na democracia ateniense: uma sociedade de privilégios onde um pequeno grupo de cidadãos proprietários debatia a política, enquanto a base material da vida era garantida pelo trabalho de escravizados e excluídos.
A industrialização dos EUA e a república sustentada pelo chicote
Antes de falarmos da guerra que dividiu o país, precisamos entender como o Norte se tornou uma potência fabril.
No início do século XIX, a história dos Estados Unidos foi marcada pela Primeira Revolução Industrial. Aproveitando a energia hidráulica e, mais tarde, o carvão, o Norte começou a construir fábricas têxteis e siderúrgicas.
Aqui reside a maior contradição materialista: as máquinas do Norte industrializado só giravam porque eram alimentadas pelo algodão colhido por pessoas escravizadas no Sul.
Isto é, não existe “sonho americano” sem o pesadelo da escravidão. A “República da Liberdade” foi financiada por essa acumulação primitiva de capital.
O ideal liberal de liberdade individual sempre parou na fronteira da propriedade privada — e, naquela época, seres humanos eram tratados como mercadoria.
Guerra Civil: o triunfo do modelo industrial
Essa simbiose entre Norte e Sul tornou-se insustentável quando o Norte precisou de mercados consumidores e o Sul se recusou a abdicar da mão de obra escravizada e do livre-comércio com a Inglaterra.
A tensão explodiu na Guerra de Secessão (1861-1865). Mais do que uma cruzada moral, foi um choque entre dois projetos de capitalismo:
- O Norte: queria protecionismo alfandegário para suas fábricas e trabalhadores assalariados para consumir seus produtos.
- O Sul: queria livre-comércio para exportar algodão e manter a escravidão para garantir lucro fácil.
A vitória do Norte em 1865 consolidou o Estado nacional como uma ferramenta para o crescimento industrial desenfreado.
Com o fim do conflito e a unificação sob o modelo nortista, os EUA estavam finalmente prontos para olhar para fora.
Estava pavimentado o caminho para a expansão territorial e a crença em uma missão divina que veremos nos próximos tópicos.
Segregação racial: o controle social pós-abolição
Muita gente se engana achando que a abolição em 1865 trouxe cidadania aos ex-escravizados. A realidade é que os EUA foram um dos últimos países a abolir a escravidão nas Américas, e fizeram isso para consolidar o modelo industrial do Norte.
Após a Guerra Civil, o racismo foi institucionalizado como uma ferramenta de controle social.
As Leis Jim Crow não eram só sobre “preconceito”. Elas serviam para criar uma cidadania de segunda classe, garantindo que a população negra continuasse sendo uma massa de manobra explorada, sem direitos políticos reais e sob constante terror estatal.
A segregação garantiu que a classe trabalhadora permanecesse dividida.
Enquanto brancos e negros disputavam migalhas, a burguesia industrial consolidava sua ascensão global, usando o racismo estrutural para impedir qualquer tipo de coesão revolucionária interna.
A construção do império interno e o expansionismo
Para os Estados Unidos se tornaram o que são hoje, foi necessário criar uma base ideológica que justificasse o derramamento de sangue.
Não foi “progresso”. Foi um projeto de construção de nação colonialista e extermínio, movido por uma crença de eleição divina.
Destino Manifesto: a semiótica do genocídio
Costumo dizer que o Destino Manifesto é o “Mein Kampf” (livro de autoria de Adolf Hitler) dos Estados Unidos. É a base política e ideológica que sustenta todo o programa de “civilização” estadunidense.
Se você olhar para a pintura clássica que ilustra esse período, a semiótica é escancarada:

- A “Liberdade” e a luz: no centro, vemos uma figura feminina angelical levando a “luz” (o sol nascendo) do Leste para o Oeste. Ela carrega fios de telégrafo, é seguida por trens e camponeses. Ela representa a liberdade, o progresso, a técnica e a razão.
- A escuridão e o “atraso”: para onde ela caminha, o que vemos é a tempestade e a escuridão. Lá estão os bisões e, principalmente, os povos indígenas, retratados como seres pré-históricos fugindo da “luz”.
Essa imagem resume a mentalidade de que os EUA teriam uma missão divina de exportar seus valores.
Na prática, esse discurso serviu para legitimar a Marcha para o Oeste, que nada mais foi do que o genocídio sistemático dos povos originários para a limpeza do território em prol da expansão do capital.
Essa cultura do “caubói civilizador” contra o “indígena bárbaro” foi tão bem introjetada que virou o centro da indústria cultural nos anos 50, com os filmes de Western (Faroeste) ensinando gerações a aplaudirem o massacre.
Doutrina Monroe e a política do “Big Stick”
Para entender o imperialismo moderno, precisamos voltar a 1823, quando foi estabelecida a Doutrina Monroe. Sob o lema “América para os americanos”, o presidente James Monroe enviou um recado claro às potências europeias: qualquer intervenção no continente seria vista como uma agressão aos EUA.
Mas não se engane pela retórica de “proteção”.
Na análise da história dos Estados Unidos, a Doutrina Monroe visava garantir que a Europa não interferisse na independência dos países da América Latina para os próprios EUA poderem dominar a região sem concorrência.
Era o estabelecimento formal do continente como o “quintal” de Washington.
Na virada do século XIX para o XX, essa expansão interna transbordou e essa doutrina ganhou dentes.
O presidente Theodor Roosevelt (o “comedor de pastel” expansionista) deixou claro que a diplomacia agora viria acompanhada de força bruta: era o nascimento da política do Big Stick (o Grande Porrete).
A lógica era simples: “Fale manso, mas carregue um grande porrete”.
Ou seja, use a diplomacia até onde ela servir aos interesses estadunidenses; quando não servir, use a força militar:
- Cuba e a Emenda Platt: em 1898, sob o pretexto de ajudar Cuba na independência contra a Espanha, os EUA ocuparam a ilha e só saíram após a assinatura da Emenda Platt, que transformou Cuba em um Estado Fantoche (semicolônia) por décadas.
- O Canal do Panamá: os EUA não apenas “construíram” o canal. Eles mobilizaram a separação do Panamá da Colômbia para garantir o controle de uma passagem estratégica entre os oceanos Atlântico e Pacífico. O canal ficou sob domínio estadunidense de 1914 até 1999, sendo o exemplo máximo de como o império retalha territórios para garantir sua hegemonia comercial.
A história só surpreende quem nada dela entende.
O fato de Donald Trump retomar tanto o discurso de “América para os americanos”, quanto o discurso de controle sobre o Canal do Panamá e a Groenlândia, é apenas o retorno ao modo de operação original do império.
A ascensão global dos EUA e a indústria da guerra
Se no século XIX os EUA estavam preocupados em limpar o próprio território, no século XX eles voltaram os olhos para o mundo.
A transição para a hegemonia que conhecemos hoje não foi um processo pacífico de “liderança democrática”, mas uma escalada militar e financeira agressiva para submeter nações e garantir o controle de recursos estratégicos.
As grandes guerras e o Complexo Industrial-Militar
Antes de 1914, o mundo vivia a Paz Armada: um período em que as potências europeias investiam pesado em tecnologia bélica para disputar colônias.
Os EUA entraram na Primeira Guerra apenas em 1917, mas sua maior participação foi como o “banco do mundo”.
Ao financiar a reconstrução da Europa, o país deixou de ser uma nação devedora para se tornar o maior credor do planeta.
O dólar começava ali sua escalada para substituir a libra esterlina.
O período entre as guerras não foi de paz, mas de uma crise profunda do sistema capitalista.
Os “Loucos Anos 20” de prosperidade artificial levaram à Crise de 1929 nos EUA, que provou o fracasso do modelo liberal de “mão invisível”. Foi um período de desemprego em massa, falência de bancos e declínio da produção industrial.
Para salvar o sistema, o Estado precisou intervir através do New Deal de Franklin Roosevelt, mas a verdade incômoda na história dos Estados Unidos é que o que realmente tirou o país do buraco econômico não foram apenas as obras públicas, mas a preparação para a próxima grande matança.
A Segunda Guerra e a indústria da morte
Diferente da Europa e da Ásia, que foram reduzidas a escombros, o território estadunidense permaneceu intacto.
Os Estados Unidos souberam como ninguém transformar a destruição alheia em negócio próprio.
Através do programa Lend-Lease, o país forneceu armas e insumos para os Aliados, turbinando sua produção doméstica.
Ao final de 1945, os EUA emergiram com uma planta industrial gigantesca voltada inteiramente para a morte.
É aqui que se consolida o Complexo Industrial-Militar: uma simbiose permanente entre o Estado, o Pentágono e as grandes corporações.
A guerra deixou de ser um evento passageiro para se tornar a base da economia política estadunidense.
Eles passaram a precisar da guerra para manter as fábricas girando, garantindo o fluxo de petróleo, minerais e a exportação de capitais.
Oppenheimer e a “arma do diálogo”
J. Robert Oppenheimer foi um físico teórico estadunidense que entrou para a história como o diretor científico do Projeto Manhattan, o esforço bilionário e ultrassecreto do governo dos EUA para desenvolver as primeiras armas nucleares durante a Segunda Guerra Mundial (aquelas jogadas em Hiroshima e Nagasaki).
Mais do que um acadêmico, ele foi a peça-chave escolhida pelo Estado para coordenar o Laboratório de Los Alamos, servindo como a ponte entre a genialidade científica e o poder de aniquilação militar.
Sua trajetória é o exemplo mais nítido de como a ciência, sob o capitalismo, é capturada para servir à expansão do império.
Dito isso, não dá para falar da história dos Estados Unidos e sua ascensão global sem falar do projeto Manhattan.
A tecnologia nuclear foi a peça final do tabuleiro da hegemonia.
Ao contrário do que Hollywood vende nos filmes, as bombas de Hiroshima e Nagasaki não foram “males necessários” para encerrar a guerra.
O Japão já estava derrotado, especialmente após a libertação da Manchúria pelo exército vermelho da União Soviética.
Hiroshima e Nagasaki foram, na verdade, os dois maiores crimes de guerra da história e serviram como uma demonstração de força para o novo mundo que surgia.
A bomba nuclear se tornou, então, a “arma do diálogo”: a ferramenta de dissuasão que garante que, mesmo em tempos de “paz”, o império tenha a última palavra.
Quem tem a bomba dita as regras do jogo e obriga o restante do globo a sentar à mesa de negociações sob a mira de uma aniquilação total.
Bretton Woods e a dominação financeira
Mas o império não se sustenta só com bombas. Ele precisa de correntes invisíveis.
Em 1944, a conferência de Bretton Woods estabeleceu o dólar como a moeda de reserva mundial e criou os dois grandes braços econômicos do imperialismo: o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial.
Essas instituições foram fundamentais para consolidar o mundo unipolar, especialmente após a queda da União Soviética em 1991.
Com o suposto “Fim da História”, o neoliberalismo foi imposto globalmente através de empréstimos condicionados e da chamada “terapia de choque”.
- FMI e Banco Mundial: atuam como os emprestadores de última instância que, em troca de dinheiro, exigem privatizações, cortes em serviços sociais e a abertura total das economias nacionais ao capital estadunidense.
- O dólar como arma: ao controlar o sistema financeiro, os EUA ganharam o poder de sancionar e asfixiar qualquer país que tente um caminho soberano, simplesmente desconectando-o do fluxo global de capitais.
Resumo da ópera até aqui: a hegemonia estadunidense é um tripé formado:
- pelo Complexo Industrial-Militar;
- pela dissuasão nuclear;
- e pela dominação financeira.
Sem um desses pés, o império começa a balançar — e é exatamente isso que estamos observando no cenário atual, do qual falaremos mais para frente.
A máquina imperialista de propaganda
Como você viu até agora, para nos aprofundarmos na história dos Estados Unidos, é impossível olharmos apenas para fatos isolados. Precisamos olhar para toda a engrenagem, e a propaganda é parte dela.
Como diria Marx em A Ideologia Alemã, as ideias de um tempo são as ideias da classe dominante.
No caso estadunidense, a dominação se dá também pela indústria cultural.
A hegemonia cultural dos EUA
A propaganda nos EUA é a ferramenta fundamental para construir uma compreensão de mundo que beneficie o capital.
Através de Hollywood e da exportação desenfreada do American Way of Life (estilo de vida americano), os Estados Unidos conseguiram o que Gramsci chamava de hegemonia cultural.
Quando você consome um filme de herói ou uma série de TV, não está só se divertindo; está sendo cooptado por uma estética que justifica o domínio de uma classe.
A propaganda é a vanguarda que prepara o terreno para a aceitação da intervenção estrangeira como algo “natural” ou “necessário”.
Ou seja, eles transformaram seu modo de vida em um padrão de civilização universal.
É simples entender essa lógica quando vemos um amigo ou familiar querendo viver o tal “sonho americano”.
O que chega na nossa TV é aquela imagem de “comercial de margarina”, com a família unida, casas com gramados perfeitos e universidades que parecem oferecer um futuro brilhante aos jovens.
Mas a realidade é o oposto da propaganda. Enquanto Hollywood vende o luxo, a base da classe trabalhadora estadunidense vive em situações de absoluta precariedade.
Na prática, o que vemos é um país onde:
- A saúde é uma mercadoria: famílias são obrigadas a hipotecar suas casas para pagar tratamentos médicos básicos, já que não existe um sistema público de saúde.
- O teto é instável: a crise imobiliária empurrou milhões para viverem em trailers ou em situações de submoradia.
- A educação é uma dívida eterna: jovens saem da faculdade com dívidas astronômicas que os acompanham por décadas, transformando o diploma em uma espécie de servidão financeira.
Ao venderem o comercial de margarina para o mundo (e os pacotes gigantescos de M&M’s para sua própria população), os EUA escondem:
- a fome;
- a obesidade fruto de má alimentação;
- e a pobreza estrutural que corrói o próprio centro do império.
Eles exportam o desejo pelo consumo para ninguém olhar para a exploração que sustenta esse mesmo modo de vida.
No meu canal, Gustavo Gaiofato, você pode conferir alguns vídeos que tratam destes temas:
- A devastadora pobreza nos Estados Unidos
- Como é ser pobre nos Estados Unidos
- O grave problema da obesidade nos Estados Unidos
- Brasileiro conta quanto custa um infarto nos Estados Unidos
Propaganda anticomunista: o “terror vermelho” como controle social
Quantas pessoas você conhece que ainda repetem, quase por instinto, que ‘o comunismo vai tomar sua casa’, que ‘o comunismo vai fechar as igrejas’, ou que ‘o comunismo matou milhões’?
Essas frases não nasceram de uma análise da realidade. São produtos de exportação.
A propaganda anticomunista nos EUA nunca foi só sobre “vencer a Guerra Fria” no exterior. Foi, acima de tudo, uma ferramenta de policiamento e controle social.
Para manter a hegemonia, a classe dominante estadunidense precisou fabricar um inimigo tão medonho que qualquer atrocidade contra ele parecesse um “serviço à democracia”.
A lógica da projeção: “acuse-os do que você faz”
Um dos mecanismos mais cínicos dessa ideologia é a projeção.
Enquanto o cinema e os folhetos de propaganda acusavam os soviéticos de infiltrar agentes e derrubar governos, era o próprio governo estadunidense que operava o terrorismo de Estado na América Latina e na Ásia.
É a subversão clássica: eu aponto o dedo para o outro para esconder minhas próprias contradições.
O Macarthismo e a caça às bruxas
Entre o final dos anos 40 e meados dos anos 50, essa paranoia anticomunista atingiu seu estado mais violento com o Macarthismo. Sob a liderança do senador Joseph McCarthy, os EUA institucionalizaram a perseguição política.
Não era preciso provas. Bastava uma acusação de “atividades antiamericanas” para que carreiras fossem destruídas e pessoas fossem banidas da vida pública.
Foi nesse período que várias pessoas entraram em listas que serviam como um mecanismo de terror para garantir que ninguém ousasse criticar o sistema ou defender pautas de esquerda.
O pânico moral e o “inimigo sem Deus”
A propaganda anticomunista estadunidense focava muito no termo “Godless” (sem Deus) para transformar uma disputa econômica em uma guerra religiosa.
Ao pintar o comunismo como algo “ímpio”, os EUA se autoatribuíram uma missão divina.
Se o Estado norte-americano está do lado de Deus, então a barbárie, a mentira e o bombardeio de civis passam a ser legitimados por uma suposta “providência”.
Retóricas como o ‘Perigo Vermelho’ ou o ‘Comunismo Ateu’ foram fabricadas nos laboratórios de propaganda do FBI e do Departamento de Estado dos EUA para criar um cenário de pânico moral.
Eles precisavam que as pessoas tivessem medo de perder suas casas para o Estado, enquanto o próprio capitalismo, através dos bancos e das hipotecas, era quem realmente colocava (e coloca) as famílias na rua.
J. Edgar Hoover e a criminalização das lutas sociais
Não podemos falar de anticomunismo sem falar de J. Edgar Hoover. O eterno chefe do FBI usou desse artifício de pânico moral para destruir qualquer movimento de emancipação:
- Panteras Negras: a luta antirracista foi carimbada como “subversão comunista” para que o Estado tivesse licença para perseguir e assassinar lideranças negras.
- Sindicatos e universidades: se você buscava direitos básicos ou criticava o capital, você era rotulado como um “agente infiltrado”. O objetivo era (e ainda é) esvaziar o debate político pelo medo.
Revisionismo histórico na Sétima Arte: o mito do “salvador do mundo”
O cinema também opera como o grande revisor da história dos Estados Unidos.
Um dos exemplos mais gritantes é a narrativa sobre a Segunda Guerra Mundial.
Enquanto a realidade mostra que foi o esforço hercúleo da União Soviética, com a virada histórica em Stalingrado, que quebrou a espinha dorsal do nazismo, Hollywood vende a ideia de que os EUA entraram na guerra e resolveram tudo sozinhos.
Esse revisionismo apaga o papel soviético para consolidar o mito dos EUA como grande “salvador do mundo”.
Se os EUA convencerem o planeta de que foram os únicos ou maiores responsáveis pela liberdade no século XX, eles ganham uma permissão moral para atuar como polícia global no século XXI.
A construção estética do inimigo
Outra forma de a classe dominante exercer seu domínio é produzindo um culpado para as mazelas do mundo. A história dos Estados Unidos é uma sucessão de inimigos fabricados esteticamente:
- Século XIX: o “selvagem” indígena, que representava o atraso e precisava ser removido para o progresso do Destino Manifesto.
- Guerra Fria: o soviético “frio e cruel”, o inimigo abjeto que ameaçava o núcleo da família americana.
- Pós-2001 – a Guerra ao Terror: o “terrorista” árabe. O discurso da “cruzada” de George W. Bush criou um inimigo de “novo tipo”, justificando a vigilância total e o controle de nações soberanas.
- Século XXI (o inimigo interno): o imigrante “invasor”. Em meio à crise estrutural, o imigrante é pintado como aquele que “rouba” empregos, comete crimes, sobrecarrega a saúde e destrói a identidade nacional.
Esta última figura é fundamental para a manutenção do poder hoje.
Ao apontar para o imigrante, a extrema-direita consegue canalizar a frustração do trabalhador empobrecido para um alvo vulnerável, impedindo que esse mesmo trabalhador perceba que quem realmente roubou sua casa foi o banco, e quem precarizou seu emprego foi a própria burguesia estadunidense.
Entenda como essa perseguição se institucionalizou através do braço armado da imigração: O que é o ICE nos EUA: história e como funciona.
A Guerra do Vietnã
A Guerra do Vietnã (1955-1975) foi o laboratório onde o império testou até onde poderia ir para conter qualquer alternativa ao capitalismo.
Baseados na chamada “Teoria do Dominó”, os EUA acreditavam que, se o Vietnã se tornasse socialista, todo o Sudeste Asiático cairia em seguida.
Mas o objetivo nunca foi proteger a “liberdade” do povo vietnamita, e sim manter um regime fantoche no Sul.
O Agente Laranja
No Vietnã, o Complexo Industrial-Militar mostrou como pode ser perverso. Não foi uma guerra convencional; foi uma guerra de extermínio químico e biológico.
- Napalm e Agente Laranja: os EUA despejaram milhões de litros de desfolhantes químicos sobre as florestas e populações civis, destruindo a base agrícola de um país camponês e deixando um rastro de malformações genéticas que perdura até hoje.
- A derrota do império: apesar da superioridade tecnológica, os EUA foram derrotados pela resistência popular dos vietcongues. Essa derrota marcou um trauma profundo na história dos Estados Unidos, que prova que nem mesmo a maior potência militar do mundo consegue sustentar uma ocupação eterna contra um povo mobilizado.
O reflexo interno: drogas e ruptura social
O Vietnã também “trouxe a guerra para casa”. Milhares de soldados voltaram da guerra viciados em heroína, e o custo astronômico do conflito começou a corroer a economia estadunidense.
Foi nesse cenário de ebulição social e protestos contra a guerra que o Estado norte-americano radicalizou sua vigilância interna, conectando a repressão no Sudeste Asiático com a perseguição aos Panteras Negras em solo americano.
Estados Fantoche: onde a propaganda não basta, o capital ocupa
Quando o soft power e os filmes de Hollywood não conseguem convencer um povo a aceitar a hegemonia, os EUA partem para a criação de “Estados Fantoche” ou o financiamento de ditaduras.
O objetivo é sempre o mesmo: garantir que aquela região sirva aos interesses econômicos e militares de Washington.
Coreia do Sul e o posto avançado na Ásia
Frequentemente vendida como o “milagre” do capitalismo”, a Coreia do Sul é, na realidade, um protetorado militar dos EUA.
Desde o fim da Guerra da Coreia, o país abriga dezenas de bases americanas e, até hoje, os EUA mantêm o controle operacional do exército sul-coreano em caso de guerra.
Ela não funciona como uma nação plenamente soberana, mas como um braço armado estrategicamente posicionado para vigiar e ameaçar a Coreia Popular (Coreia do Norte) e conter a influência chinesa.
O crescimento sul-coreano não foi mágica de mercado; foi uma decisão geopolítica.
Para impedir que o sucesso do modelo de bem-estar social da Coreia Popular atraísse a classe trabalhadora do Sul, os EUA injetaram bilhões de dólares e sustentaram ditaduras violentas por décadas, como a de Park Chung-hee, para industrializar o país “na marra” e mantê-lo sob rédea curta.
A United Fruit Company e as “Repúblicas de Bananas”
Nas Américas, o imperialismo mostrou sua face mais crua através do capital direto.
Grandes grupos econômicos transformaram nações da América Central em latifúndios dependentes, derrubando governos legítimos apenas para garantir o lucro de empresas como a United Fruit.
Expliquei sobre este tema e sobre a United Fruit no vídeo: Por que os Estados Unidos querem a América Central?
Porto Rico: a colônia esquecida
Se a Coreia do Sul é o braço armado na Ásia, Porto Rico é a base de operações no coração das Américas.
Diferente de outras nações que mantêm uma soberania formal, Porto Rico vive em um limbo jurídico: é um território não incorporado dos Estados Unidos.
Historicamente, a ilha serviu como uma “sentinela do Caribe”, garantindo que nenhuma alternativa política na região, como a Revolução Cubana, pudesse se expandir sem ser vigiada de perto pelas bases navais instaladas no território.
Compreenda como esse processo de dominação se arrasta desde o século XIX: A história de Porto Rico: por que a ilha ainda é uma colônia dos EUA?
O braço armado da OTAN
A expansão da OTAN para o leste é a continuação dessa política de cercamento.
O objetivo não é a defesa, mas a ocupação constante de espaços que possam servir de plataforma para o lançamento de ataques ou sanções, como vemos hoje na pressão sobre a Groenlândia e o leste europeu.
Para entender mais sobre essa situação, é só assistir a este vídeo: O papel da Groenlândia e do Ártico para a política mundial.
Cone Sul: ditaduras e a Operação Condor
Na América do Sul, os Estados Unidos financiaram e arquitetaram diversos golpes de Estado.
Brasil (1964), Chile (1973) e Argentina (1976) viram suas democracias serem destruídas para dar lugar a regimes militares que operavam como prepostos dos interesses estadunidenses.
Através da Operação Condor, os EUA coordenaram a repressão política no continente, garantindo a abertura dos mercados, o esmagamento dos sindicatos, a perseguição aos comunistas e o alinhamento geopolítico automático.
O caso do Paraguai e a Base de Alcântara
A estratégia de cercamento na América do Sul não parou nas ditaduras do século XX. Em 2025/2026, com a volta de Trump à presidência dos EUA, vemos a reativação da Doutrina Monroe com roupas novas:
- O acordo com o Paraguai: o acordo assinado entre Trump e o governo paraguaio permite a atuação de militares e civis do Departamento de Guerra no país vizinho sob o pretexto de “ajuda humanitária”. Na realidade, é a criação de uma base logística para monitorar o Brasil e garantir a influência na América do Sul.
- Brasil e a soberania em xeque: não podemos esquecer da Base de Alcântara, no Maranhão. Sua localização é a melhor do mundo para lançamentos espaciais e foi concedida ao uso militar estadunidense. Além disso, o treinamento de tropas americanas na Amazônia e na Caatinga mostra que o atual alinhamento do governo federal brasileiro é muito mais vacilante do que parece, permitindo que a “águia careca” sobrevoe nossas riquezas minerais e Terras Raras.
Embargos e terrorismo ideológico: o cerco a Cuba, Venezuela e Coreia Popular
O que o senso comum chama de “sanções” ou “embargos”, na análise materialista, chamamos de terrorismo ideológico.
O uso de listas de “países patrocinadores do terrorismo” pelos EUA não serve para combater a violência, mas para restringir a soberania nacional e a diplomacia.
É um mecanismo de cerco econômico desenhado para garantir que qualquer alternativa ao capitalismo fracasse por asfixia, e não por inviabilidade do modelo.
Como funciona a engrenagem do bloqueio?
A força do embargo estadunidense não reside apenas na proibição de empresas americanas negociarem com o país alvo, mas nas sanções secundárias.
Os EUA, como potência hegemônica, punem qualquer nação ou empresa estrangeira que ouse comercializar com o país bloqueado.
Isso isola a economia do país do sistema financeiro global (SWIFT), impedindo a compra de insumos básicos como medicamentos e tecnologia.
Cuba e o fim do CAME
Após a queda da União Soviética e do Conselho de Assistência Mútua Econômica (CAME), Cuba perdeu seus parceiros comerciais da noite para o dia.
O bloqueio, intensificado por leis como a Torricelli e a Helms-Burton, visa transformar a carência material em uma revolta interna que derrube a tentativa do modelo socialista.
Venezuela e a guerra híbrida
Na Venezuela, o bloqueio atinge a base do país: o petróleo.
Ao confiscar ativos e impedir a livre venda desse recurso estratégico, os EUA forçam uma crise de desabastecimento para legitimar tentativas de golpe e a instalação de governos submissos aos interesses de Washington.
Vimos claramente onde isso chegou em janeiro de 2026, com o sequestro de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cília Flores pelos EUA.
Sob o pretexto de “combate ao narcotráfico”, os EUA se apossaram de seu alvo real: os 300 bilhões de barris de petróleo — 17% das reservas mundiais — que o governo Trump deseja controlar para sustentar seu projeto de reindustrialização.
Coreia Popular (RPDC): o país mais bloqueado da Terra
A Coreia do Norte é o maior “espantalho” da mídia ocidental. Bloqueada desde 1950, a RPDC perdeu 40% do seu comércio com a queda do bloco socialista.
Como o território é 80% montanhoso e possui pouca terra agricultável, o bloqueio alimentar é uma arma de guerra biológica indireta.
A “guerra esquecida” e a política Songun
Diferente do que Hollywood mostra, a Guerra da Coreia (ou Guerra de Libertação da Pátria) foi um laboratório de atrocidades.
Os EUA despejaram na Coreia do Norte mais bombas do que em todo o teatro de operações do Pacífico na Segunda Guerra Mundial.
Foram usados agentes químicos, biológicos e napalm, destruindo praticamente 100% da infraestrutura do país.
Ou seja, a Coreia Popular não se arma por ‘loucura’ de seus líderes como a mídia tenta pregar, mas por uma necessidade material de defesa.
Em um estado de armistício (a guerra nunca acabou formalmente), ter armas nucleares é a única ferramenta que obriga o império a “baixar a bola”, e que garante que o país não seja a próxima Líbia ou o próximo Iraque.
O papel da mídia: Radio Free Asia e a indústria da mentira
Para sustentar o bloqueio, é preciso desumanizar a população alvo. Novamente, vemos a propaganda estadunidense em seu pleno funcionamento.
Veículos financiados pelo Departamento de Estado dos EUA, como a Radio Free Asia, produzem notícias falsas sistemáticas sobre a Coreia Popular: leis sobre cortes de cabelo, proibição de sorrir, etc..
O objetivo é reduzir o debate econômico e histórico a um nível de “insanidade”, impedindo que as pessoas entendam que os problemas desses países são, em grande parte, fruto do cerco externo.
Censura e mecenato: o mito da “liberdade de expressão”
Muitos criticam a restrição de rede social em países como Cuba, Coreia do Norte e China, mas ignoram que o controle do fluxo de informações existe em todas as sociedades.
- Nos EUA: durante 30 anos, vigorou o Código Hays, que censurava desde beijos inter-raciais até críticas às instituições. Hoje, o mercado (as cinco gigantes de Hollywood) atua como o censor: o que não dá lucro ou ataca os interesses do capital não é produzido.
- Nas experiências socialistas: o mecenas é o Estado. O financiamento da arte e da comunicação serve para manter a experiência revolucionária. Como dizia George Lucas, enquanto o cinema americano é movido pelo lucro, o cinema soviético, como o de Tarkovsky, era movido pela inovação artística, produzindo obras experimentais que nunca sobreviveriam à lógica de mercado do Ocidente.
O declínio e a face oculta do “sonho americano”
Hoje, o império estadunidense está em sua fase de declínio. Dessa forma, tenta exercer o poder que ainda resta pela força bruta, pela disputa de narrativas, pelo sequestro de autoridades e, ainda, por uma rede invisível e onipresente que captura o que temos de mais íntimo: nossos dados.
Big Techs e o Vale do Silício: a vigilância como modelo de negócio
Muitas vezes, a propaganda do Vale do Silício nos vende a ideia de que a tecnologia traz “autonomia” e “liberdade”. No entanto, o que vemos hoje é a morte da atividade política mediada pelas Big Techs.
Sabe aquela sensação de estar conversando com um amigo sobre um produto e, minutos depois, receber uma oferta exatamente daquilo no seu celular?
Esse é o preço que você paga por serviços supostamente gratuitos.
No capitalismo, se você não paga pelo produto, o produto é você.
As Big Techs hoje funcionam como um cartel que centraliza o conhecimento e a comunicação.
O que antes era uma internet aberta e compartilhada, tornou-se uma rede centralizada onde o algoritmo decide o que você vai ver e como você deve pensar.
É a hegemonia ideológica aplicada no nível do código-fonte.
O fim do debate público
Como aponta Evgeny Morozov, existe um perigo silencioso na ideia de que problemas sociais complexos, como moradia e fome, podem ser resolvidos por “algoritmos” ou “pó de pirlimpimpim” tecnológico.
Ao transformarmos a política em uma simples “gestão de dados”, esvaziamos o debate democrático e o poder popular, deixando as decisões sobre a vida das pessoas nas mãos de três ou quatro megacorporações que só visam o lucro dos seus investidores.
“Projeto Stargate”: a IA como nova bomba atômica
Em 2026, os EUA estão tentando virar o jogo com o Projeto Stargate. Com um investimento anunciado de 500 bilhões de dólares, o governo Trump e as Big Techs tentam criar uma rede nacional de data centers para garantir a liderança em Inteligência Artificial.
Mas a conta não fecha. A economia dos EUA tornou-se perigosamente dependente de uma bolha de IA que consome montanhas de capital sem gerar lucro real.
- O colonialismo hídrico: para resfriar esses monstros tecnológicos, os EUA precisam de uma matriz energética equivalente a uma “nova Califórnia”. Como não conseguem suprir isso internamente, avançam sobre a periferia do capital. O interesse no Brasil não é só tecnológico; é pelos nossos aquíferos também. Eles querem que usemos nossa água doce para resfriar servidores cujos códigos-fonte jamais acessaremos. A tecnologia não será nossa. Os dados não serão nossos. O conhecimento não ficará com a gente. O que nos restará serão apenas os danos ambientais e suas consequências para a classe trabalhadora.
O limbo jurídico e a liberdade de ódio
Existe hoje um limbo jurídico deliberado em torno da IA e das redes sociais. As Big Techs lutam contra qualquer regulamentação específica para não serem responsabilizadas pelo que seus algoritmos impulsionam.
- Engajamento pelo caos: sem regras, o algoritmo não prioriza a verdade, mas o engajamento. Discursos de ódio, violência e abusos geram mais interações e, consequentemente, mais lucro.
- Censura seletiva: enquanto conteúdos violentos circulam livremente, perfis que propõem um debate anticapitalista e anti-imperialista, como os de Jones Manoel e do Chavoso da USP, sofrem bloqueios deliberados, sem justificativa plausível, e o chamado shadowbanning. A “liberdade” das redes é, na verdade, uma liberdade monitorada para quem não está alinhado aos interesses da burguesia.
- Ingerência eleitoral e soberania nacional: com a chegada das eleições de 2026, as Big Techs — agora mais do que nunca alinhadas ao governo Trump e aos interesses da extrema-direita global — atuam como agentes de ingerência deliberada. Através da manipulação de algoritmos, elas têm o poder de silenciar o campo progressista enquanto pavimentam o caminho para candidaturas submissas a Washington. É a exportação de um projeto político que usa a desinformação e a polarização para garantir que o próximo governo brasileiro seja um aliado fiel da Doutrina Monroe 2.0.
Narcoterrorismo: o novo espantalho do império
Se as Big Techs e os algoritmos do Vale do Silício controlam o fluxo de informações e modulam o comportamento, a retórica do Narcoterrorismo é o que justifica o movimento das tropas no chão.
Um império em decadência, como os Estados Unidos de hoje, não consegue mais manter sua hegemonia apenas pela diplomacia. Ele precisa fabricar “tubarões”.
A simplificação das contradições e o “efeito tubarão”
Para explicar isso, gosto de recorrer ao que Slavoj Žižek discute em sua análise sobre a ideologia. O sistema busca simplificar todas as contradições sociais em um único objeto de ódio.
- No século XX, o “tubarão” era o comunismo.
- Nos anos 2000, era o terrorismo islâmico.
- Em 2026, o novo monstro unificador é o Narcoterrorismo.
Ao associar o narcotráfico ao terrorismo internacional, o governo Trump cria uma brecha jurídica (como o Enemies Act) que permite aos EUA ignorar a soberania de qualquer país para “combater o crime”.
O objetivo real não é acabar com as drogas — afinal, os EUA continuam sendo o maior mercado consumidor do mundo e nunca investigam seus próprios cartéis financeiros. O objetivo é criar legitimidade para intervenções militares onde existam recursos estratégicos.
A ameaça à soberania brasileira e às Terras Raras
Assim como a Venezuela, o Brasil está diretamente na mira dessa nova velha estratégia.
A pressão para incluir organizações como o PCC e o Comando Vermelho em listas de terrorismo internacional não visa resolver a segurança pública brasileira. Isso se resolveria atacando o braço financeiro do crime organizado na Faria Lima, e não só com operações policiais populistas.
O interesse real dos EUA no Brasil hoje atende pelo nome de Terras Raras. Possuímos depósitos gigantescos desses minerais críticos, fundamentais para a indústria militar e de microchips.
Ao dominarem nossas Terras Raras, os EUA podem bater de frente com seu maior rival na atualidade: a China, que, por enquanto, detém o monopólio de processamento desses recursos naturais.
A crise social nos Estados Unidos
Enquanto o governo dos EUA gasta trilhões em guerras, a base da classe trabalhadora estadunidense vive um cenário apocalíptico.
- Epidemia de Fentanil: a desindustrialização neoliberal jogou a classe trabalhadora na pobreza, na informalidade e na epidemia de Fentanil. Em 2023, foram 110 mil mortes por overdose do opióide. Hoje, as ruas do Rust Belt (Cinturão da Ferrugem) parecem cenários de filmes de terror, com trabalhadores desempregados vivendo em situações de submoradia, fome e vício.
- A dívida como servidão: o endividamento das famílias atingiu o recorde de 18,5 trilhões de dólares em 2025. Hipotecas, cartões de crédito e dívidas estudantis transformaram o diploma em uma corrente financeira. Atualmente, 13 milhões de crianças passam fome no país que se diz o mais rico do mundo.
Doutrina Monroe 2.0: o isolacionismo agressivo
Se você acha que Trump é um “louco varrido”, saiba que, na verdade, ele é o sintoma de um império em decadência. Ao aplicar um tarifaço mundial (10% sobre o Brasil e 50% sobre a China), ele tentou romper com a ordem neoliberal globalista que os próprios EUA criaram.
- O ataque ao Irã e o fracasso militar: a tentativa de atender aos anseios de Israel e dominar o petróleo iraniano virou um nabo orçamentário. Enquanto um drone iraniano custa 20 mil dólares, os EUA gastam 4 milhões para interceptá-lo. É uma guerra que está gerando um enorme desgaste financeiro aos EUA.
- A desdolarização: a maior ameaça do império não é militar, é o Jin Pix (RMB Digital). Enquanto o sistema Swift, controlado pelos EUA, leva dias para processar um pagamento, o sistema chinês leva 7 segundos e reduz taxas em 98%. O dólar está perdendo seu trono como moeda fiduciária global.
Resumo da ópera: Trump caminha para um tudo ou nada, flertando com um terceiro mandato e controlando a Suprema Corte para manter a sobrevida de uma nação moribunda.
Os EUA não são mais o farol do mundo; são um império decadente que tenta se salvar roubando o futuro da América Latina.
Conclusão
Ao longo deste artigo, mergulhamos nas entranhas do que sustenta a hegemonia dos Estados Unidos.
Vimos que, desde o genocídio dos povos originários e a escravidão fundacional, até o sequestro de presidentes e o colonialismo digital de 2026, a trajetória norte-americana não é uma sucessão de acidentes, mas um projeto de classe meticulosamente executado.
Você deve ter percebido que, com exceção de Donald Trump — que hoje escancara a face mais desesperada e nua desse império em declínio —, pouco focamos em nomes de presidentes para contar a história dos Estados Unidos. Isso é proposital.
Independente de quem ocupa o Salão Oval, seja um democrata com retórica polida ou um republicano agressivo, o projeto estadunidense segue uma cartilha institucional. Todos eles estão dispostos a segui-la à risca.
O objetivo é sempre a expansão do capital, o controle de recursos estratégicos, como o petróleo, a água e as nossas Terras Raras, e a manutenção da soberania do dólar.
Uns podem agir com mais afinco, outros com mais diplomacia, mas a engrenagem de dominação nunca para de girar.
Entender que o imperialismo é o estágio superior do capitalismo, como definiu Lênin, não é apenas um exercício acadêmico. É uma necessidade de sobrevivência.
A crítica anti-imperialista é a única ferramenta capaz de denunciar os projetos coloniais que, ainda hoje, tentam ditar o que o Brasil e toda a América Latina devem fazer com suas riquezas e quem deve vencer nossas eleições.
O império está caindo, mas cai atirando.
Cabe a nós recusar o papel de “quintal” e combater a ideologia do medo com a organização popular. Somente a soberania real e o enfrentamento direto a essa lógica de rapina podem garantir que nosso futuro não seja apenas um rodapé na história do capital estrangeiro.
Gostou desta análise? A batalha das ideias continua. Não deixe de conferir os vídeos recomendados ao longo do texto, compartilhe este artigo para mais pessoas entenderem o que está por trás da história dos Estados Unidos e, claro, se quiser se aprofundar em história, política e sociologia, conheça as formações do ContraCurso.



