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Uma imagem poderosa e simbólica que ilustra as tensões geopolíticas e o ataque ao Irã pelos EUA e Israel, apresentando uma parede de concreto rachada com as bandeiras dos Estados Unidos e do Irã pintadas em lados opostos de uma profunda divisão central. A textura áspera e as fissuras na superfície de concreto evocam conflitos, atritos e o impacto da intervenção militar. Esta representação visual impactante serve como um lembrete visual dos riscos e das consequências associados à escalada de tensões entre as duas nações.

Ataque ao Irã: quais interesses estão por trás dos bombardeios de EUA e Israel

Se você acompanhou as notícias deste início de março de 2026, sabe que o mundo acordou sob tensão extrema. 

Os Estados Unidos e Israel realizaram uma série de ataques diretos e coordenados contra o território do Irã. 

Imediatamente, o alarme global soou, e a pergunta que dominou a internet e as mesas de debate foi uma só: afinal, por que o ataque ao Irã agora? E mais importante: estamos caminhando a passos largos para a Terceira Guerra Mundial?

Para entender o que está acontecendo no Oriente Médio, não podemos cair na armadilha das narrativas da mídia hegemônica, que trata conflitos geopolíticos como se fossem filmes de heróis e vilões. 

Precisamos olhar para a materialidade dos fatos: economia, controle de rotas comerciais, crise de hegemonia e a fase atual do imperialismo.

Neste artigo, vamos dissecar o tabuleiro geopolítico atual, entender os interesses por trás dessa ofensiva conjunta de Donald Trump e Benjamin Netanyahu, o papel do Estreito de Ormuz, a limitação dos BRICS e o que o Brasil tem a ver com tudo isso.

Lembrando que este é só um resumo da história. Se preferir, assista ao vídeo completo no meu canal, Gustavo Gaiofato, clicando no play do vídeo aqui em cima.

Um ataque ao Irã anunciado e a brutalidade imperialista

Primeiro, é preciso esclarecer que o recente ataque ao Irã por EUA e Israel não foi uma surpresa para as autoridades iranianas. 

Diferente dos bombardeios massivos de junho do ano passado — durante a chamada “Guerra dos 12 Dias”, que visou eliminar lideranças da Guarda Revolucionária Iraniana e cientistas do programa nuclear de forma abrupta —, a ofensiva atual já estava precificada no tabuleiro de Teerã.

Nas semanas anteriores, os Estados Unidos haviam movimentado uma parte significativa de suas frotas para áreas próximas ao Golfo Pérsico e ao Mar Arábico. O Irã sabia que o golpe viria.

No entanto, a ausência de surpresa não diminui a brutalidade da ação. 

Mais uma vez, o mundo testemunhou a violência perpetuada pela aliança estadunidense e sionista, que já ceifou mais de 700 vidas iranianas apenas neste conflito. 

Um dos ataques atingiu diretamente uma escola de meninas no Irã, vitimando mais de 40 crianças.

Ironicamente — ou tragicamente —, a grande imprensa ocidental silenciou. 

Os mesmos jornais e governos que frequentemente usam a pauta dos direitos das mulheres iranianas como justificativa para sanções, convenientemente ignoraram o massacre de dezenas de meninas por mísseis “democráticos”. 

É a velha política de dois pesos e duas medidas do imperialismo.

Mas, indo direto ao ponto central: por que o ataque ao Irã neste exato momento histórico?

Por que os EUA atacou o Irã? A aliança Trump-Netanyahu

Para responder a essa pergunta, precisamos analisar a profunda aliança entre o governo de Donald Trump e o governo sionista de Benjamin Netanyahu.

Uma das principais diretrizes da plataforma política de Trump (o movimento MAGA – Make America Great Again) sempre foi o discurso de “tirar os EUA das guerras intermináveis”. 

A base trumpista mais ideológica é frequentemente contrária ao envio de tropas americanas e bilhões de dólares para conflitos no exterior, seja na Ucrânia ou no Oriente Médio.

No entanto, a situação de Israel mudou o cálculo. 

O projeto de genocídio e limpeza étnica em Gaza, promovido pelo regime sionista, não conseguiu subjugar rapidamente a resistência local. 

Netanyahu precisava arrastar seu maior fiador, os Estados Unidos, diretamente para o olho do furacão. E conseguiu.

O recente ataque ao Irã aconteceu, portanto, porque o país é a principal pedra no sapato do projeto expansionista de Israel. 

O objetivo de fundo de Netanyahu nunca foi apenas “derrotar o Hamas”, mas sim consolidar o projeto da “Grande Israel”, que passa necessariamente por:

  • anexar territórios de forma colonial;
  • expulsar o povo palestino;
  • e dominar politicamente os povos árabes da região.

Para que a “Grande Israel” exista e se expanda, o principal agente político, econômico e militar capaz de oferecer resistência na região precisa ser aniquilado. Esse agente é o Irã.

O “Eixo da Resistência” e a frustração sionista

Israel possui uma máquina de guerra financiada por bilhões de dólares dos pagadores de impostos estadunidenses. 

Ainda assim, o Exército de Israel não conseguiu dominar a Faixa de Gaza por meio de uma invasão terrestre rápida, precisando recorrer ao extermínio por bombardeios massivos, destruição de hospitais, escolas e acampamentos de refugiados — criando um verdadeiro campo de extermínio a céu aberto.

A dificuldade terrestre de Israel se dá por conta da feroz resistência não apenas em Gaza, mas em múltiplas frentes:

  • Hamas e Frente Popular: resistindo ativamente dentro das ruínas de Gaza.
  • Hezbollah: no sul do Líbano e norte de Israel. O Hezbollah é uma organização política e militar xiita que nasceu na esteira da sangrenta invasão de Israel ao Líbano em 1982.
  • Ansar Allah (Houthis): no Iêmen, responsáveis por bloquear o acesso de navios ligados a Israel no Mar Vermelho, estrangulando uma rota comercial vital que dá acesso ao Canal de Suez.

Todas essas organizações — embora atuem local e regionalmente com pautas próprias — possuem alinhamento tático, inspiração ou financiamento do Irã. 

Teerã é o grande conector desse “Eixo da Resistência”. 

Logo, o ataque ao Irã por EUA e Israel tem como objetivo cortar a cabeça da serpente que impede a dominação total de Israel no Oriente Médio.

O Estreito de Ormuz: a guerra pelo petróleo e o fator China

A geopolítica nunca é apenas sobre território. É fundamentalmente sobre economia e recursos. E aqui entra o principal nervo exposto deste conflito: o Estreito de Ormuz.

O Irã não é um país árabe, e sim persa, mas sua localização geográfica é uma das mais vitais do planeta. 

Ele conecta a Península Arábica e o Oriente Médio à Ásia Central. Mas seu maior trunfo é o controle militar sobre o Estreito de Ormuz, a pequena passagem de água por onde escoa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo.

Infográfico do portal G1 datado de 19/06/2025 que detalha a localização estratégica do Estreito de Ormuz, o Irã e o Golfo Pérsico, relevante para analisar cenários de um ataque ao Irã.
Localização estratégica do Estreito de Ormuz.

Milhões de barris de petróleo bruto de países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Iraque passam diariamente por ali. 

Foi exatamente para a vizinhança desse estreito, no Mar Arábico, que os EUA enviaram seus gigantescos porta-aviões, como o USS Gerald R. Ford.

Aqui, o ataque ao Irã ganha uma camada mais profunda: a contenção da China

Uma parte gigantesca do petróleo exportado que atravessa Ormuz (inclusive o próprio petróleo iraniano) tem como destino a China

Logo, o ataque ao Irã ameaça a estabilidade desta rota, sendo que os Estados Unidos estão, na prática, colocando uma faca no pescoço do fornecimento energético chinês.

Apesar da China investir maciçamente em transição energética, sua gigantesca base industrial ainda depende do petróleo do Oriente Médio. 

O ataque ao Irã é, portanto, um ataque indireto à cadeia produtiva chinesa.

A ilusão da “mudança de regime” 

Outro objetivo claro dos Estados Unidos com esses bombardeios é a tentativa de aplicar a velha cartilha de Regime Change (Mudança de Regime).

O imperialismo estadunidense acreditava que ao assassinar lideranças estratégicas, militares e religiosas (como o próprio aiatolá Ali Khamenei), causaria um vácuo de poder e o colapso da República Islâmica. 

A ideia era emular o mesmo caos promovido recentemente na Venezuela, com o sequestro de Nicolás Maduro e a desestabilização completa do país sul-americano.

Os EUA esperavam com isso que as tensões internas iranianas explodissem. 

Vale lembrar que, há algumas semanas, o Irã enfrentou protestos internos genuínos motivados por problemas econômicos reais, como a desvalorização da moeda e o desabastecimento. 

Como de costume, a inteligência dos EUA tentou cooptar essas insatisfações legítimas para forçar a derrubada do governo e instalar um fantoche sob tutela de Washington, assim como faziam antes da Revolução Islâmica de 1979 com o Xá Reza Pahlavi.

No entanto, o tiro parece ter saído pela culatra. 

A Guarda Revolucionária Iraniana manteve a coesão, os protestos internos foram apaziguados e o governo iraniano respondeu à agressão estrangeira retalhando bases militares dos EUA instaladas no Iraque, Bahrein, Catar e Emirados Árabes Unidos.

Infográfico da Statista com o número estimado de tropas dos EUA no Oriente Médio, mostrando bases em países vizinhos como Iraque e Catar, essencial para entender a logística do ataque ao Irã.
Mapa detalhando a presença de tropas e bases dos Estados Unidos em países vizinhos ao território iraniano.

Uma invasão terrestre estadunidense no Irã é altamente improvável. O país tem uma geografia montanhosa terrível para invasores, uma população imensa e um exército preparado. 

Uma coisa é bombardear pelo ar, outra é pisar no chão. Os EUA sabem que o Irã seria um atoleiro militar incalculável.

BRICS x OTAN: por que Rússia e China não intervêm nos conflitos recentes?

Muitos se perguntam: se o Irã é aliado da Rússia e da China, por que essas potências não entraram na guerra para defendê-lo?

A resposta está em entender a natureza das organizações internacionais. 

Os BRICS não são uma aliança militar. Eles não funcionam como a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que possui cláusulas de defesa mútua (onde o ataque a um membro é considerado um ataque a todos).

Os BRICS são um bloco econômico e comercial. Embora busquem construir uma ordem multipolar para rivalizar com a hegemonia do dólar, o pragmatismo fala mais alto em tempos de guerra militar. 

É extremamente improvável que a China ou a Rússia declarem guerra aos EUA para defender o Irã militarmente. 

A ajuda, se houver, será nos bastidores: inteligência de satélites, dados, tecnologia ou alívio econômico.

Isso expõe uma dura realidade para muitos setores da esquerda que idealizam os BRICS.

Eles não são uma organização anti-imperialista por essência. São geridos por burguesias nacionais (chinesa, russa, indiana) que buscam seus próprios interesses no mercado global. 

A passividade dessas potências frente ao massacre na Palestina já havia deixado esse nível de pragmatismo bastante claro.

Terceira Guerra Mundial e a crise do Imperialismo

Sempre que mísseis voam entre superpotências ou potências regionais, o termo “Terceira Guerra Mundial” vai parar nos trending topics. É natural o medo, mas precisamos analisar o momento com frieza.

Não estamos mais lidando apenas com invasões unilaterais como as que os EUA fizeram no Iraque ou no Afeganistão nos anos 2000. O que vemos hoje são conflitos abertos entre Estados.

Lênin explicava que o imperialismo não é apenas uma “política agressiva”, mas sim a fase superior do capitalismo, marcada pela monopolização e pela disputa global por territórios, rotas e matérias-primas.

O que estamos presenciando é a crise estrutural desse imperialismo. Os Estados Unidos estão perdendo a hegemonia produtiva, tecnológica e comercial para a China em um ritmo que não conseguem mais reverter. 

A China produz mais rápido, tem o controle dos semicondutores e o monopólio das terras raras.

Sem conseguir vencer na economia produtiva, os EUA dão o seu “all-in” (aposta máxima) na única área onde ainda possuem hegemonia absoluta: a força militar.

A guerra se torna uma necessidade do capitalismo estadunidense em declínio. 

Os conflitos pipocando simultaneamente — Guerra na Ucrânia, genocídio na Palestina, tensões em Taiwan, instabilidade na Venezuela e agora o ataque ao Irã — não são eventos isolados. São sintomas de um sistema imperialista em agonia, tentando manter seu controle global através do militarismo. 

Estamos, de fato, caminhando para um cenário fragmentado que compõe o que muitos historiadores no futuro poderão chamar de uma Guerra Mundial não declarada.

O risco para Trump, porém, é doméstico. Se o ataque ao Irã fechar o Estreito de Ormuz, o preço do petróleo vai disparar. 

Uma crise energética global mergulhará os EUA numa espiral inflacionária brutal, destruindo a já combalida condição de vida da classe trabalhadora americana e enterrando as promessas econômicas do governo republicano.

O Brasil de Lula: equilibrando pratos ou cedendo ao imperialismo?

Diante do ataque ao Irã, a diplomacia brasileira tentou equilibrar pratos. Mas a realidade da geopolítica atual é dura: o Brasil de 2026, sob a liderança de Lula, está se mostrando cada vez mais alinhado aos interesses de Washington do que aos objetivos de um Sul Global independente.

Os fatos são teimosos: 

  • o Brasil vetou a entrada da Venezuela nos BRICS;
  • tem fechado acordos bilionários para a concessão de terras raras brasileiras aos Estados Unidos;
  • e tem permitido a instalação de data centers de big techs ligadas à inteligência ocidental em nosso território.

A resposta brasileira aos ataques ao Irã foi tímida e insuficiente

Hoje, o Brasil possui uma proximidade diplomática e tática muito maior com o governo de Donald Trump do que com a articulação de um bloco econômico anti-imperialista real. 

O medo de sofrer sanções tem transformado a diplomacia brasileira em uma política de concessões contínuas

E quem tenta equilibrar todos os pratos ao mesmo tempo para não desagradar ninguém, uma hora deixa tudo cair no chão.

Conclusão 

A resposta para a pergunta inicial — por que o ataque ao Irã agora — é multifacetada.

Trata-se da tentativa desesperada de:

  • salvar o projeto genocida da “Grande Israel”;
  • tentar asfixiar indiretamente o fluxo de petróleo para a China;
  • tentar aplicar uma “mudança de regime” através do caos;
  • garantir, pela força dos mísseis, uma hegemonia que a economia norte-americana já não consegue sustentar nas fábricas.

A derrota do Irã, neste cenário, representaria a derrota final do povo palestino e um triunfo do colonialismo na região. 

Os próximos meses definirão as fronteiras do poder no século XXI.

O imperialismo em crise é como um animal ferido: é quando ele se torna mais agressivo e letal.

E você, o que pensa sobre tudo isso? Acredita que estamos no prólogo de um conflito global irreversível ou que as retaliações vão se estabilizar? 

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