Nos últimos meses, a administração Trump intensificou suas operações contra imigrantes, revelando uma face preocupante da política interna dos Estados Unidos.
O U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) emergiu como a força central deste movimento, atuando como uma verdadeira tropa de choque para a agenda republicana.
As imagens de detenções têm gerado forte repercussão pela brutalidade e violência explícita, especialmente para um país que se orgulha de ser a “terra da liberdade“.
Sob Trump, o ICE deixou de ser apenas uma agência de fiscalização para se tornar a força de segurança mais importante da política interna norte-americana.
Mais do que isso: o ICE se tornou o “cimento ideológico” para o plano político de Donald Trump.
Mas para entender como chegamos a esse ponto — onde o orçamento para prender imigrantes supera o de exércitos inteiros —, precisamos olhar para a história, para a estrutura de poder e para quem lucra com esse encarceramento em massa.
Mas lembre-se: este é só um resumo. Para assistir à análise completa é só clicar no play do vídeo aqui em cima.
O que é o ICE e qual sua origem histórica?
A sigla ICE vem de U.S. Immigration and Customs Enforcement, que pode ser traduzida literalmente como ‘Serviço de Imigração e Fiscalização Alfandegária dos EUA’. No entanto, tratar essa agência apenas como uma burocracia alfandegária é um erro. Na prática, o ICE atua como a polícia interna de deportação: é o braço armado federal com poder para investigar, perseguir e prender estrangeiros dentro do território estadunidense, longe das fronteiras, arrancando pessoas de suas casas e de seus locais de trabalho.
O U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) não existia antes do século XXI. Ele foi criado em 1º de março de 2003, como uma resposta direta aos ataques de 11 de setembro de 2001.
O objetivo inicial era integrar e centralizar a segurança interna para prevenir novos ataques terroristas.
Sua fundação faz parte da maior reorganização governamental dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial, marcada pelo Ato de Segurança Interna de 2002.
O ICE nasceu da fusão de duas agências antigas que cumpriam papéis distintos, e essa mistura é a raiz do problema atual:
- INS (Immigration and Naturalization Service): responsável pela fiscalização civil e detenção de imigrantes.
- U.S. Customs Service: o serviço de alfândega, responsável por investigações criminais e perícias de fronteira.
Ao fundir essas duas autoridades, o Estado norte-americano criou um órgão com poder civil para deportar e, ao mesmo tempo, poder criminal para investigar.
O imigrante, que antes era uma questão administrativa, passou a ser tratado sob a ótica da segurança nacional e da criminalidade.
Para organizar essa “super agência”, o ICE foi dividido em três diretórios que operam até hoje:
- HSI (Homeland Security Investigations): focado em crimes transnacionais (lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, crimes cibernéticos).
- ERO (Enforcement and Removal Operations): a tropa de choque. Responsável por identificar, prender, deter e remover imigrantes.
- OPLA (Office of the Principal Legal Advisor): o braço jurídico que representa o governo nos processos de deportação.
A linha do tempo da repressão: de Bush a Trump
É fundamental entender que a máquina de deportação que Trump opera hoje não surgiu do nada.
Ela foi construída, financiada e expandida por todas as administrações anteriores, sejam republicanas ou democratas.
Governo Bush (2001–2009): a Guerra ao Terror
Foi na era Bush que a retórica mudou. O “inimigo externo” (que na Guerra Fria eram os comunistas) foi substituído pela ameaça do terrorismo.
O discurso contra o imigrante, especialmente de origem islâmica ou do Oriente Médio, ganhou força total.
Bush criou o programa Secure Communities em 2008, permitindo que o ICE realizasse detenções em bairros residenciais.
Foi também o início das Worksite Raids (batidas em locais de trabalho).
Em uma única operação em 2006, o governo Bush prendeu 1.300 trabalhadores de uma só vez em seis fábricas.
O saldo de seu governo foi de 2 milhões de deportados.
Governo Obama (2009–2017): o “Deportador Chefe”
Barack Obama, visto por muitos como um “grande democrata”, carregou o título de “Deporter in Chief” (Deportador Chefe).
- Seu governo bateu recordes históricos, com 3,2 milhões de pessoas removidas.
- Em 2012, o auge da repressão, o ICE removia mais de 1.100 imigrantes por dia.
- Embora tenha criado o DACA em 2012 para proteger jovens que chegaram aos EUA na infância, Obama fortaleceu o Secure Communities e transformou a infração civil de cruzar a fronteira em uma condenação criminal, lotando os centros de detenção com famílias e crianças.
Governo Trump (primeira gestão: 2017–2021)
Trump aproveitou a estrutura deixada por Obama e retirou as travas. Com o discurso do Make America Great Again, ele implementou políticas para impedir que o imigrante sequer pisasse nos EUA:
- Zero Tolerance (2018): encaminhou todos os casos de imigração para processos criminais, gerando a infame separação de famílias.
- Remain in Mexico: obrigou 65 mil solicitantes de asilo a aguardarem no México.
- Título 42: usou a pandemia como pretexto para expulsões imediatas sem processo legal.
Governo Biden (2021–2025): a expansão silenciosa
Sob um discurso humanitário, Biden não apenas manteve, como fortaleceu o ICE.
- Em janeiro de 2021, havia 14 mil pessoas sob custódia do ICE. Em janeiro de 2025 (início do segundo mandato de Trump), esse número saltou para 40 mil pessoas.
- Biden expandiu os contratos com prisões privadas, criando entre 30 e 37 mil novas vagas.
- Sua política de detention at large realizou mais de 500 mil prisões internas. O dado mais chocante: 51% dessas pessoas não tinham antecedentes criminais.
Biden preparou o palco para o que viria a seguir.
O “One Big Beautiful Act”: a era Trump 2025
Chegamos ao momento atual. Com a volta de Trump ao poder em 2025, o ICE deixou de ser uma agência de contenção para virar uma força de ocupação interna.
Observe o gráfico abaixo divulgado pelo USA Facts. Veja que o número de pessoas detidas pelo ICE mantém uma certa estabilidade entre 2021 e 2023, com picos de crescimento.
Em 2024, ainda no governo Biden, houve um aumento considerável no número de presos.
Mas foi a partir de 2025, com a segunda gestão de Donald Trump, que o gráfico mostra um crescimento assombroso.

A base legal para essa nova fase é o “One Big Beautiful Act”, aprovado simbolicamente no dia 4 de julho de 2025 (Dia da Independência dos EUA). Esta lei é um cheque em branco para a deportação em massa.
Os números dessa nova era são, sem exagero, de guerra:
- Orçamento astronômico: foram aprovados US$170 bilhões para serem gastos em quatro anos com a fiscalização da fronteira e do interior do país, com o objetivo declarado do governo Trump em deportar mais de 1 milhão de imigrantes a cada ano. Isso é mais dinheiro do que o orçamento anual de todas as polícias estaduais e locais dos EUA somadas.
- Infraestrutura de prisão: o ICE recebeu US$45 bilhões apenas para construir novos centros de detenção.
- Comparativo: esse valor (US$ 45 bi) é superior ao orçamento militar total de países membros da OTAN como a Itália (US$ 30,9 bi), o Canadá (US$ 41 bi) e até do Brasil (US$ 26,1 bi).
Ou seja: os EUA gastam mais para prender imigrantes do que o Brasil gasta para manter suas Forças Armadas inteiras.
- Meta de leitos: o objetivo é saltar de 56 mil para 108 mil leitos de detenção até o final de 2026.
O Complexo Industrial de Deportação: quem lucra com as detenções?
Essa política não é movida apenas por ideologia, mas por interesses de uma fatia específica do capital estadunidense. Cerca de 90% das pessoas detidas pelo ICE estão em complexos prisionais privados.
Existe um “Complexo Industrial de Deportação” que lucra com o encarceramento em massa.
As duas maiores empresas do setor, CoreCivic e GEO Group, viram suas ações dobrarem de preço logo após a eleição de Trump. No segundo trimestre, a CoreCivic apresentou um aumento de 103% no seu lucro líquido.
A lógica remete à 13ª Emenda da Constituição dos EUA, que aboliu a escravidão exceto em casos de condenação criminal.
Ao criminalizar a imigração, o sistema cria uma massa de trabalhadores encarcerados que podem ser explorados por essas mesmas empresas a custos irrisórios, fechando o ciclo de acumulação de capital.
Essa dinâmica de usar o sistema penal e policial para controle de populações marginalizadas não é novidade na história norte-americana. Ela foi combatida nas décadas de 60 e 70 por movimentos que denunciavam a brutalidade do Estado, como expliquei em detalhes no artigo e no vídeo sobre os Panteras Negras.
O gráfico de detenções divulgado no American Immigration Council mostra isso claramente: a linha que mais cresce verticalmente é a de imigrantes sem nenhum antecedente criminal.

É uma política deliberada de “pesca de arrasto” para lotar prisões privadas.
O novo perfil do Agente do ICE: “Stormtroopers” ideológicos
Para dobrar o tamanho da força policial e deportar 1 milhão de pessoas por ano, o governo Trump precisava de mão de obra rápida.
A solução foi rebaixar drasticamente os critérios de contratação dos Agentes do ICE, criando uma força policial perigosa e radicalizada.
Como o ICE está recrutando em 2025:
- Treinamento relâmpago: o tempo de formação de um agente caiu de seis meses para apenas seis semanas. Agentes armados estão indo para as ruas com pouco mais de um mês de instrução.
- Agentes jovens: a idade mínima foi reduzida de 40 para 21 anos, com estudos para baixar ainda mais, para 18 anos.
- Coerção econômica: o governo mira na classe trabalhadora endividada. Oferece-se o perdão de dívidas estudantis (até US$ 60 mil) e bônus de contratação imediata de US$ 50 mil. É uma oferta irrecusável, especialmente para jovens pobres e endividados.
O resultado é uma tropa de choque ideologicamente alinhada ao Make America Great Again, com estética militarizada e pouca supervisão.
O aumento da violência nas operações — batidas em tribunais, escolas e hospitais — reflete essa mudança no perfil da corporação.
Quem são os deportados dos Estados Unidos?
Existe um mito muito forte, alimentado pela mídia e por filmes de Hollywood, de que o ICE caça apenas “criminosos perigosos” ou pessoas que acabaram de pular o muro.
A realidade dos dados de 2025 mostra um cenário bem diferente.
Ao contrário do discurso oficial de que o foco são os “bad hombres” (criminosos violentos), a máquina de deportação de Trump opera sob a lógica da pesca de arrasto: joga-se a rede e leva-se tudo o que vier.
O fim da distinção “Criminoso vs. Trabalhador”
Até pouco tempo atrás, existiam “prioridades de deportação”. Se você fosse um trabalhador sem documentos, mas sem ficha policial, você não era o alvo principal.
Isso acabou.
Dados recentes indicam que cerca de 50% a 80% das pessoas detidas nas novas operações do ICE ou não possuem antecedentes criminais ou não possuem antecedentes criminais graves.
São trabalhadores, pais e mães de família que cometeram apenas a infração civil de estar no país sem visto.
Para o complexo industrial privado, um preso é um preso (e gera lucro), independentemente de ele ser um traficante ou um entregador de aplicativo.
Ameaça aos “Legais”: a Força-Tarefa de Desnaturalização
O governo Trump reativou e fortaleceu a Força-Tarefa de Desnaturalização. O objetivo é revisar processos de cidadania de pessoas que já se naturalizaram norte-americanas anos atrás.
O governo busca minúcias ou “erros” em formulários antigos para acusar o imigrante de fraude, retirar sua cidadania e deportá-lo.
Isso cria um clima de terror onde mesmo quem tem Green Card ou a cidadania não se sente seguro.
Além disso, portadores de vistos de trabalho (como o H-1B) estão sofrendo com taxas de rejeição e revogação muito maiores.
O perfil brasileiro
Os brasileiros são um alvo preferencial de deportação. Historicamente, o Brasil é um dos países que mais recebe voos de deportados.
O perfil médio do brasileiro deportado em 2025 não é o de um criminoso, mas o de um homem jovem, que emigrou em busca de trabalho precário na construção civil ou serviços, e que foi pego em batidas de trânsito ou operações em locais de trabalho.
Em resumo: se antes a regra era “comporte-se e você fica“, a nova regra é “se você não nasceu aqui, você é um alvo em potencial“.
Conclusão
Ao analisar a trajetória do ICE, fica claro que a questão imigratória nos Estados Unidos não é sobre “segurança de fronteira” no sentido tradicional. Trata-se de uma ferramenta de controle social e econômico.
O imigrante indocumentado serve a dois propósitos no capitalismo norte-americano:
- Econômico: quando está livre, é mão de obra barata nos EUA e sem direitos, que pressiona os salários para baixo. Quando está preso, gera lucro para a indústria carcerária privada.
- Político: serve como bode expiatório ideal para canalizar a frustração da classe trabalhadora estadunidense, desviando o foco das reais contradições do sistema.
A transformação do ICE na “SS” da política interna americana, com um orçamento maior que exércitos nacionais, indica que a brutalidade não é um erro do sistema, mas sim sua nova fase de operação.
Para o imigrante brasileiro ou latino-americano, entender essa engrenagem não é apenas curiosidade geopolítica — é uma questão de sobrevivência.
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