Há algumas semanas, protestos contra o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) têm se espalhado por várias cidades dos Estados Unidos.
Em um desses protestos, uma cena chamou a atenção.
Ela aconteceu na cidade da Filadélfia, no estado da Pensilvânia, onde pessoas armadas, usando jaquetas, boinas, servindo café para os necessitados e escoltando os manifestantes contra a violência do ICE, se reivindicaram como o Partido dos Panteras Negras para a Autodefesa.
Mas afinal, quem foram os Panteras Negras e o que eles defendiam?
Por que a estética e a tática desse grupo estão servindo de inspiração para novos movimentos em pleno 2026?
Tudo isso você vai entender ao longo deste artigo (caso queira assistir ao conteúdo completo, é só dar o play no vídeo aqui em cima).
Quem foram os Panteras Negras?

Os Panteras Negras foram militantes do Partido dos Panteras Negras para a Autodefesa, um partido de vanguarda marxista-leninista fundado em 1966 por Huey Newton e Bobby Seale, como resposta às diversas brutalidades policiais que aconteciam na cidade de Oakland, na Califórnia.
No início, essa era uma organização não oficial, tendo como militantes apenas os fundadores, que visavam evitar os abusos cometidos pela polícia estadunidense contra a população negra local.
Para isso, Huey e Bobby se armaram e passaram a fazer a “ronda da ronda”, seguindo as viaturas policiais pelos bairros negros em Oakland a fim de minimizar as ações truculentas que muitas vezes resultavam na morte de pessoas negras.
A história dos Panteras Negras começa em um período de extrema segregação racial nos Estados Unidos, que vamos entender a seguir.
Os Estados Unidos e a segregação racial
Antes de tudo, precisamos lembrar que os Estados Unidos são uma sociedade construída à base do princípio da segregação (ato de separar os cidadãos de uma mesma sociedade com base em raça, cor, nacionalidade, religião, gênero).
Lá, a ideia de cidadania, de direitos civis, era acessível ou reconhecível somente para uma camada bem pequena da população.
Nesse contexto, um grupo em particular sofreu uma segregação mais avançada: o grupo dos afro-americanos.
Era um grupo de descendentes dos negros que foram levados para o país como fruto da escravidão colonial e do tráfico interatlântico de escravos.
Então, além das violências comuns da época da escravidão, os afro-americanos foram vitimados por mecanismos e estruturas de segregação legais, com leis criadas pelo Estado para assegurar a segregação.
Essas leis foram usadas nos estados do sul dos Estados Unidos, aqueles que defendiam a continuidade da escravidão durante a guerra civil e que aprovaram as chamadas Jim Crow Laws (Leis de Jim Crow).
As leis de segregação definiram, por exemplo, que os negros:
- deveriam frequentar escolas diferentes;
- usar banheiros diferentes;
- não poderiam ter o direito à organização e à reunião;
- e deveriam sempre se colocar nesse lugar de subserviência, de serventia às populações brancas dessas regiões.
As Jim Crow Laws estavam presentes nos estados do sul, mas no norte dos EUA os casos de racismo também eram comuns e frequentes, com a diferença de que não existiam leis de segregação nesses estados.
E para além dos mecanismos jurídicos, a violência contra a população negra também era cometida pela polícia e por organizações como a Ku Klux Klan, cujo principal objetivo era perseguir e colocar o terror nas populações negras dos estados do sul.
A Ku Klux Klan é uma organização que existe até hoje sob outros formatos e nomes, e tem influência profunda na política dos Estados Unidos.
O movimento de resistência contra a segregação nos EUA
Durante a década de 50, o movimento pelos direitos civis e pelo reconhecimento das populações negras em uma cidadania plena nos Estados Unidos começou a crescer.
Com isso, cresceu também a brutalidade e a violência policial, principalmente onde essas contradições eram mais presentes.
Sob a liderança do chefe William H. Parker, a polícia passou a tratar os manifestantes que reivindicavam o direito civil, incluindo negros, populações hispânicas e indígenas, como inimigos internos a serem combatidos.
Então, várias comunidades negras e latinas começaram a ser alvo dessa intensa perseguição policial, e muitas vezes por crimes pequenos.
Por exemplo, se um grupo jogava dados ou fazia jogo de azar, essas pessoas seriam autuadas pela lei da vadiagem e reprimidas caso se levantassem contra esses processos.
Nessa época, apenas 2,5% dos policiais eram negros.
A maioria das forças policiais da Califórnia era composta por brancos que, além de praticarem a ideologia racista fundadora dos Estados Unidos, também nutria simpatias abertas e desavergonhadas por organizações como a Ku Klux Klan.
O surgimento do movimento dos Panteras Negras
Nesse contexto de conflito interno é que surgiram os Panteras Negras, uma das organizações mais importantes da história dos Estados Unidos.
Bobby Seale, ainda vivo, resolveu estudar a legislação da Califórnia e descobriu ser permitido por lei que um cidadão portasse uma arma carregada a céu aberto, desde que essa arma não fosse apontada para um policial e não interrompesse o trabalho das forças de segurança.
Bobby, junto a Huey Newton, buscaram, então, um meio de juntar dinheiro para comprar armas.
Eles foram até a Universidade de Berkeley, na Califórnia, e lá venderam centenas de exemplares do livro vermelho de Mao Tsé-Tung, liderança comunista revolucionária da China que ganhou popularidade em diversos movimentos pelo mundo.
Após venderem todos os livros, eles compraram duas escopetas e passaram a fazer patrulhas para monitorar as abordagens policiais pelos bairros mais atingidos pela violência policial.
Essas ações ganharam notoriedade entre a população e para ampliar e profissionalizar essa estrutura, o Partido dos Panteras Negras para a Autodefesa foi fundado oficialmente em outubro de 1966, com sua sede principal instalada na cidade de Oakland, na Califórnia.
O que defendiam os Panteras Negras?
O Partido dos Panteras Negras para a Autodefesa defendia a libertação dos negros e a união dos trabalhadores dos Estados Unidos de todas as etnias e nacionalidades contra o Estado racista e capitalista que existia naquela ocasião (e que existe até hoje).
Ou seja, não se tratava só de um coletivo antirracista, nem de uma organização pontual.
Era um partido político de ideologia marxista-leninista, influenciado também pelo pensamento de Mao Tsé-Tung e por uma série de movimentos internacionais que estavam acontecendo naquele contexto.
A plataforma política dos Panteras Negras era composta por 10 pontos principais:
- A libertação dos negros em todo o país.
- O emprego estável.
- O fim da exploração capitalista.
- A moradia digna para todas as pessoas.
- Um programa educacional que expusesse a verdadeira história de opressão dos Estados Unidos.
- A isenção dos negros do serviço militar.
- O fim imediato da brutalidade policial e do assassinato de pessoas negras.
- A liberdade para todos os homens negros em prisões municipais, estaduais e federais.
- O julgamento de pessoas negras por pessoas da comunidade local, conforme definido pela Constituição.
- Terra, pão, habitação, educação, roupas, justiça e paz.
Além desses 10 pontos, eles também estabeleceram um conjunto de 26 regras que todo militante do Partido dos Panteras Negras deveria seguir de maneira disciplinada.
A formação dos Panteras Negras causou um grande temor na sociedade branca californiana.
Setores conservadores começaram uma campanha de difamação contra Bobby Seale e Huey Newton, alegando que os dois seriam homens violentos, embora nenhum caso de violência tenha sido registrado durante as patrulhas.
Para tentar frear o grupo, políticos conservadores (com apoio do então governador Ronald Reagan e até da Associação Nacional de Rifles) impulsionaram a Mulford Act, uma lei para proibir o porte de armas carregadas em público.
Foi nesse momento que o grupo realizou seu ato mais ousado: no dia da votação da lei, em 1967, os Panteras Negras entraram na Assembleia Legislativa da Califórnia carregando suas armas.
A imprensa publicou manchetes tentando atrelar a ação à violência para descredibilizar o grupo, mas o tiro saiu pela culatra.
O episódio fez com que os Panteras se tornassem nacionalmente conhecidos, atraindo milhares de novos membros e expandindo a organização para além da Califórnia.
Os programas sociais dos Panteras Negras
Com o crescimento da fama e do conhecimento geral, os Panteras Negras passaram a realizar ações além das escoltas, os programas para sobrevivência.
Esses programas assistiam as populações negras, as populações necessitadas dos bairros de trabalhadores e periféricos, fornecendo gratuitamente:
- café da manhã;
- atendimento médico;
- roupas;
- treinos de autodefesa;
- aulas sobre política e história;
- e um programa de reabilitação para álcool e drogas.
Nesse momento, apenas um ano depois de sua fundação, o partido contava com aproximadamente 10 mil membros no país e já tinha sedes em cidades como Baltimore, Boston, Chicago, Cleveland, Dallas, Denver, Detroit, Kansas City, Nova Orleans, Nova Iorque, Omaha, Filadélfia, Pittsburgh, San Diego, San Francisco, Seattle, Toledo e Washington DC.
Eles também publicaram um jornal que se tornou o mais vendido dos Estados Unidos, com mais de 250 mil cópias vendidas por semana.
Isso fez com que as ideias e as noções de mundo dos Panteras Negras, que defendiam a libertação da classe trabalhadora dos Estados Unidos, ficassem cada vez mais conhecidas e populares, o que significava para as forças do governo e das classes dominantes dos EUA uma ameaça direta.
Como o FBI perseguiu os Panteras Negras?
Foi nesse momento de ascensão que as forças de segurança dos Estados Unidos começaram a se mover para impedir o crescimento da influência dos Panteras Negras.
O marco inicial dessa perseguição foi um artigo escrito por J. Edgar Hoover, diretor do FBI (a Polícia Federal dos Estados Unidos).
Hoover declarou que os Panteras Negras eram a “maior ameaça à segurança nacional” e que deveriam ser neutralizados enquanto fosse tempo.
Por conta do medo instalado na população, o governo passou a usar o COINTELPRO (Programa de Contrainteligência), criado originalmente em 1956 para combater movimentos comunistas, agora voltado contra os Panteras.
A preocupação do governo era justamente o fato de o Partido ser uma vanguarda marxista-leninista que combinava duas pautas sensíveis para a classe dominante: a luta contra a segregação racial e o movimento dos trabalhadores.
Ao fundir essas duas questões, eles se tornaram o “Inimigo Número 1” da América.
Para se ter uma ideia, nessa época, o COINTELPRO realizou 290 intervenções contra grupos nos EUA. Dessas, 245 foram especificamente contra os Panteras Negras.
As ações incluíam:
- Envio de mensagens falsas para gerar confusão e discórdia interna.
- Articulação com polícias locais para prisões em massa.
- Planejamento de assassinatos de grandes lideranças.
- Perseguição sistemática contra membros em todo o país.
Um exemplo brutal dessa violência ocorreu na Califórnia. Após uma emboscada policial, Bobby Hutton, de apenas 17 anos (e o primeiro recruta do partido), rendeu-se saindo de uma casa com as mãos para o alto. Mesmo desarmado, ele foi executado pela polícia com 12 tiros.
Hutton tornou-se um mártir do movimento. Seu velório reuniu mais de 1.500 pessoas, contando inclusive com a presença do astro de Hollywood Marlon Brando, que apoiava publicamente os Panteras, o que demonstrava o impacto cultural que a repressão gerava.
Outro exemplo da perseguição aconteceu em Nova Iorque, quando o FBI articulou a prisão das principais lideranças sob a acusação falsa de “planejamento de bombardeios”.
O grupo ficou conhecido como “Os 21 Panteras”.
Uma das acusadas, Afeni Shakur, fez sua própria defesa e garantiu a absolvição de todos.
Nessa época, Afeni estava grávida de seu primeiro filho, que se tornaria um dos maiores nomes do rap mundial: Tupac Shakur.
Sua madrinha, Assata Shakur, também foi perseguida, presa, fugiu da prisão e vive exilada em Cuba até hoje.
Quem foi Fred Hampton?

Em 1968, com a prisão do fundador dos Panteras Negras, Bobby Seale, em Chicago, uma nova figura ganhou destaque por sua retórica, carisma e defesa da revolução: Fred Hampton.
Com apenas 19 anos, Hampton defendia não apenas a revolução socialista, mas a unidade racial.
Em seus discursos, ele afirmava:
“Você não combate o capitalismo branco com o capitalismo negro, você combate o capitalismo com o socialismo”.
Hampton foi fundamental por atuar em Chicago, um centro industrial, onde promoveu a Coalizão Arco-Íris (Rainbow Coalition).
Essa aliança uniu Panteras Negras, estudantes, imigrantes, latinos, sindicatos de brancos pobres e até gangues locais para lutar contra o governo capitalista.
Com o sucesso da Coalizão, os Panteras se mudaram para um quartel-general unificado.
Foi então que informantes do FBI se infiltraram, fornecendo armas e criando pretextos para operações policiais.
O guarda-costas de Fred Hampton, na verdade, era um desses informantes e desenhou o mapa do apartamento para facilitar uma invasão pelo FBI.
O resultado foi trágico: a polícia de Chicago, com apoio de forças especiais, invadiu a sede no meio da noite e disparou mais de 90 tiros.
As investigações provaram que os Panteras Negras dispararam, no máximo, um tiro (acidental). Fred Hampton foi executado dormindo, com dois tiros à queima-roupa.
A polícia tentou sustentar a versão de um “confronto intenso” de 10 minutos, mas a farsa caiu quando os próprios Panteras abriram o local para a visitação da imprensa e da comunidade, provando que foi um massacre unilateral.
Essa história é retratada no filme Judas e o Messias Negro.
Vale lembrar que a Califórnia foi pioneira no desenvolvimento de tropas especiais.
Em 1969, a SWAT foi usada pela primeira vez na história justamente numa operação contra o quartel-general dos Panteras Negras em Oakland, iniciando um período de vigilância intensa e paranoia que enfraqueceria a organização.
Como os Panteras Negras desapareceram?
A década de 70 marcou o declínio da organização dos Panteras Negras, impulsionado principalmente por um racha ideológico entre dois de seus maiores líderes: Huey Newton e Eldridge Cleaver.
Os dois divergiam sobre o futuro do partido:
- Huey Newton defendia o foco nos “Programas de Sobrevivência” (serviços de emergência e assistência social);

- Eldridge Cleaver era favorável à intensificação da luta armada e à guerrilha urbana dentro dos EUA.

Essa dissidência interna foi a oportunidade perfeita para o FBI, que aproveitou a briga para instalar um clima de paranoia generalizada, enfraquecendo a estrutura do partido.
A organização foi definhando aos poucos até encerrar suas atividades oficialmente em 1982.
O destino dos líderes
Anos mais tarde, os líderes do Partido dos Panteras Negras para a Autodefesa tiveram destinos muito diferentes:
- Huey Newton enfrentou problemas com saúde mental e dependência química, sendo assassinado por gangues na Califórnia.
- Eldridge Cleaver mudou radicalmente de posição, tornando-se um político cristão conservador.
- Bobby Seale, que fundou o partido ao lado de Newton, permanece vivo e ativo, sendo uma figura de referência para movimentos contemporâneos como o Black Lives Matter.

Qual foi o legado do Partido dos Panteras Negras?
Apesar do fim da instituição, o legado dos Panteras Negras permanece vivo. Para além dos programas de café da manhã e da estética revolucionária, sua maior herança foi provar que havia espaço para a criação de um movimento organizado da classe trabalhadora contra o capitalismo dentro dos Estados Unidos.
Eles deixaram a lição de que é possível unir teoria marxista-leninista, luta antirracista e ação prática nas comunidades, servindo de inspiração para as novas gerações que hoje ocupam as ruas.
Conclusão
Neste momento, vemos as contradições internas dos Estados Unidos crescerem novamente, especialmente com a atuação do ICE (a polícia de imigração de Donald Trump).
É nesse contexto que a estética e a tática dos Panteras voltam a aparecer.
Elas ressurgem do passado para lembrar aos trabalhadores americanos — imigrantes, brancos e de todas as etnias — que houve um momento em que a classe trabalhadora presenciou um movimento de organização e ofensiva.
Um movimento que permitiu vislumbrar uma outra realidade e a possibilidade de um outro futuro.
Resta saber se esse novo movimento que surge na Filadélfia terá a mesma articulação política do partido original.
Ainda é cedo para dizer se eles conseguirão crescer e, principalmente, se defenderão um programa socialista aberto pela emancipação dos trabalhadores, sem medo.
Esse é o resumo da ópera.
O que você acha dessa questão? Você acompanhou os protestos recentes ou viu as imagens desse “novo” grupo? Deixe sua opinião nos comentários.
E se este artigo te ajudou a entender melhor a história dos Panteras Negras além do senso comum, compartilhe com quem precisa conhecer a trajetória de um dos movimentos mais influentes do século XX.
Referências:
https://www.inquirer.com/news/black-pather-party-philadelphia-minnesota-shooting-20260110.html
https://marxist.com/lessons-from-the-history-and-struggle-of-the-black-panther-party.htm
https://www.yahoo.com/news/articles/philadelphia-chapter-black-panther-party-164000656.html


